A Casa das AurorasA Casa das Auroras by Cristina Carvalho

Uma história que se passa entre lugar nenhum e algum lugar, local apropriado ao sonho, embora disso não se tenha a certeza.

Dizem que um lugar assim ganhou existência, que tomou corpo na confissão de alguém e se prolongou efémero, no limiar entre a noite que se perde e o dia que se anuncia, “são as manhãs brancas e transparentes, são contornos de luz, são equilíbrios da transição das noites para os dias e dos dias para as noites, deliciosas melopeias, nascimentos renovados, gemidos leves, espuma que sobe no ar”.

Um lugar impossível de se fixar, uma casa onde se partilham memórias, momento mágico de ritual redentor.

Das nossas histórias não lhe conhecemos o fim e quando as contamos, por vezes, temos duas versões diferentes, dois finais. Ambos possíveis, tão simétricos um do outro, tão reais quanto sonhados, só possíveis num instante, nesse exato instante em que os contamos.

A Casa das Auroras não é um livro de contos, mas de encontros de pessoas e da forma como encaram a vida, umas arrastadas, outras sem se saber ao certo se a viveram, algumas inconformadas… um rumor lamento de vidas interrompidas percorre este livro.

Sabemos que num dado momento do dia podemos ser todas estas personagens e que esse instante acontece num único local, a Casa das Auroras.
Esta é uma escrita muito própria, dotada de ritmos improváveis e misteriosos, onde nada é simples e a narrativa está impregnada da arte de bem saber escrever. Uma poesia visual inspirada na mestria dos grandes pintores renascentistas.

«Deixa-me apalpar-te as pernas», pediu ele poisando uma das mãos num dos meus calcanhares. «São tão macias! E então aí para cima, por debaixo da tua saia, ainda devem ser mais macias…»
Milhares e milhares de passaritos sedosos, pequeninos, encontraram um espaço por entre os seus lábios e por eles se soltaram e voaram na direcção da lua enorme que se via através da cortina branca de algodão da janela do meu quarto e atrás deles, desses milhares e milhares de asas transparentes, voaram também palavras:
«Sim, podes.»

Um silêncio impõe-se a quem lê este livro, não um silêncio qualquer, mas um silêncio que sustente o turbilhão interior que assalta o leitor, só desse modo somos convidados a entrar na Casas das Auroras.

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