A QuedaA Queda Albert Camus

Um encontro casual entre dois franceses num bar em Amsterdão desencadeia um monólogo em forma de diálogo iludido. Intuímos o que outro diz, pensa ou reage, sem lhe escutarmos a sua voz ou dele termos uma descrição. O domínio da narrativa que, na primeira pessoa, pertence a Jean-Baptiste Clemence, o juiz penitente, leva-nos num passeio pelo seu mundo e pela expiação das suas culpas.

Seguro, define as balizas do seu pensamento: “Bastar-lhes-á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Depois desta forte definição, o assunto ficará, se assim me posso exprimir, esgotado.”

A voz do juiz-penitente é o reflexo de uma sociedade superficial e consumidora das efémeras notícias dos jornais. Só o crime consegue bater esta iniquidade, ser ainda mais impessoal. “O crime está incessantemente à boca da cena, mas o criminoso só lá figura de fugida, para logo ser substituído.” Antes de ter vestido a pele do juiz-penitente, Jean-Baptiste, fora um célebre advogado em Paris: “Os juízes condenavam, os réus expiavam e eu, isento de qualquer obrigação, de julgamentos e de sanção, eu imperava, livremente, numa luz edénica.”

Um sentimento de impunidade cortado apenas por um momento de fragilidade, “filho de rei ou sarça ardente… pairei até à noite em que… a música acabou e as luzes se apagaram.” E seguiu-se-lhe a queda.

Enquanto vai contando a sua história de ascensão, partilha com o seu ocasional conterrâneo, algumas das singularidades da paisagem de Amesterdão: “Como? Estas damas, por detrás das vidraças? O sonho, meu caro senhor, o sonho com pouco esforço, a viagem às índias! Estas criaturas perfumam-se com especiarias. Entra-se, elas correm as cortinas e a navegação começa. Os deuses descem sobre os corpos nus e as ilhas vão à deriva, dementes, encimadas por uma cabeleira desgrenhada de palmeira ao vento. Experimente.”
Mesmo atingindo o topo, onde até “uma mulher que me perseguia amiúde mas em vão teve o bom senso de morrer nova.”, Jean-Baptiste toma consciência de que a sua vida não foi plena de abundância: “Todos esses livros mal lidos, esses amigos mal amados, essas cidades mal visitadas, essas mulheres mal possuídas.”

“E compreendia aquele homem que, tendo professado numa ordem religiosa, despiu a sotaina, porque sua a cela, em vez de se abrir, como ele contava, para uma vasta paisagem, dava para uma simples parede.”

A sua arrogância não conhece limites, sem o nomear, refere-se a Jesus Cristo: “Mas ao lado das razões que muito bem nos explicaram durante dois mil anos, havia uma grande para esta horrível agonia, e não sei porque a escondem tão cuidadosamente. … Se não carregava com o peso do crime de que o acusavam, tinha cometido outros, ainda que ignorasse quais. Ignoraria, aliás? … As crianças da Judeia massacradas, enquanto os seus pais o levavam para lugar seguro, porque tinham sido mortas por causa dele? … Raquel chamava pelos filhos mortos por causa dele e ele estava vivo! … Valia mais acabar, não se defender, morrer, para já não estar sozinho na vida… Não foi amparado, disso se queixou, e, para cúmulo, censuraram-no. Sim foi o terceiro evangelista, creio, que começou por suprimir a sua queixa. «Porque Me abandonaste?» era um grito insubordinado, não acha? Nesse caso, tesouras! Repare, aliás se Lucas nada tivesse suprimido, a coisa mal se teria notado; não teria ocupado tanto espaço, em todo o caso. Assim, o censor proclama o que proscreve. A ordem do mundo é também ambígua.”

Este é o homem que discorre com elegância sobre a sua própria desgraça e, enquanto juiz penitente, proclama ao seu interlocutor: “Eu sou o fim e o começo, anuncio a lei.” Um anjo caído sem se aperceber que perdeu as graças dos Céus.

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