Cala a Minha Boca Com a TuaCala a Minha Boca Com a Tua by Pedro Paixão

Um itinerário pela mentira, amor e paixão, vividas na primeira pessoa com o distanciamento do sonho; esta seria uma forma rápida de resumir este livro, se tal fosse possível. Numa narrativa coerente e desconexa somos convidados a seguir alguém que se desloca a Nova Iorque com o intuito único de escrever um livro. No meio desse projecto acontece-lhe viver.

“As coisas não se ligam umas às outras, o tempo não avança, tropeça.” As histórias deste livro também tropeçam nas mulheres que vão acontecendo, numa obsessão para além do erótico e do sexual.

“E ela diz: amor. E eu digo: amor e ficamos muito tempo calados a ouvir as gotas de chuva a caírem no pátio, sobre as copas das árvores… Achas que haverá duas gotas a caírem exactamente no mesmo momento? Depende da precisão, da probabilidade, depende da velocidade do vento.”

Uma narrativa que vive de encontros fortuitos, de probabilidades não medidas, do olhar ocasional sobre as coisas, das mulheres que passam, dos projectos que ficam.

“Os seus livros são tão românticos. Oferece flores quando está apaixonado?, perguntam-me, a meio do mercado das flores, numa entrevista para a televisão. Não, fodo, respondo. Não passam este diálogo na televisão.”

Os locais por onde passa, deixam-lhe marcas suaves que regista em curtas frases, “Têm caras gentis, abertas às lágrimas.”, escreve sobre os estudantes de Coimbra, em plena queima das fitas e, nesse repente, o essencial foi dito.

As mulheres são igualmente captadas em traços breves que libertam toda a sua sensualidade, “Era igualmente impossível alguém imaginar o riso dela antes de o ouvir.”

A escrita de Pedro Paixão tem esse lado romântico de homem livre, errante, eterno cavaleiro dominador das noites sem dormir, dos comprimidos como suplemento espiritual.

Não encontramos aqui um testemunho para a vida, uma lição a extrair, uma casa onde se possa habitar. Apenas o vazio dos nossos sonhos.

“Aguentaram enquanto puderam. Depois encontraram-se. Ninguém sabe porquê. Nem eles.”

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