GabrielGabriel by Amelia Vieira

Tal como os Patriarcas falavam directamente com o indizível, o poeta possui o dom de religar e a consciência da sua própria natureza, o que lhe impede de se remeter a um divertimento linguístico. O seu dizer não é lúdico, é libertador, mestre na arte da transformação.

Consciência que lhe vem desde a origem do tempo, onde todo o anúncio começou. Cabe-lhe afirmar: Impedi em cada verso o fim do mundo, não posso fazer mais… O anjo Gabriel é a poesia que daí emana.

Neste livro, Amélia Vieira revisita essa relação imanente que, desde sempre, o homem mantém com o divino. O homem que não se liga ao chão concreto sobre o qual caminha, mas que se eleva acima dos elementos, ao sublime caminho das deidades. O Homem morto, rasgado e só, é corpo atirado para um devir em guarda, e confessa-se eu nada tive, amei os homens porque me eram estranhos… Nasci? Não. Todos me inventaram. Padeci.

 

Naquele tempo saiu da Galileia um Menino.
Foi quando ainda não havia crianças.
Os Meninos saem devagar da Infância prometida
Entrando já sem ver na morte Escura…

Esse é o apelo do banquete permanente.
Manjar não eucarístico que jorra directamente da Fonte. Banquete nupcial. Porque o homem continua a ser o projecto inviável, aquele a quem tudo pode ser retirado, a alma, o olho, e a sua própria falta. É-me mais fácil saber que há Deus pois não sei se há homens.

E ser no ser do outro a condição esperada.

Vai então, não olhes, não escutes,
Não sintas que os homens por perto te vigiam
Procura o meu rosto eternamente belo…

A deidade cansa-nos, esse momento só na humanidade, archeiro rente à destreza com o encantamento de nos ignorar. Depois nem te disse adeus, eu não sou a despedida nem a curva que falta aos teus sentidos.
Meu tempo tem repentinamente outras fronteiras, verdades intactas, terras mais inteiras.
Porque não somos da vida nem nos interessa a morte.

Este Gabriel, transversal ao anúncio das religiões do livro, interroga-se: E, pergunto-me, senhores do eterno: Que fazeis rendidos aos encantos da planície dos dias? Voltas circulares? Curvas frias? Rendidos às formas de barro…
A poesia é a chave única para esse Mistério, caminho libertador do belo que existe em nós; e se bela é a face de Deus que não nos é permitida contemplar, só pela beleza seremos elevados à Sua presença.
Amélia Vieira deixa-nos um poema escrito em forma de liturgia sobre esse permanente combate humano à fealdade, Deus começa em nós, em outra face…

Isto é o que restou da essência de Deus
Para quem tu
Que lês o que está aqui
Não passas de um estranho.

E o filho nunca mais é visto, dizem que o Pai o acolheu. Não. Foi a mãe que o comeu.

O manto do indizível cobre-nos, lancemo-nos no seu anúncio. Aí, nesse Vórtice de ti maior que a dimensão do querer…

 

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