Mar de SentidosMar de Sentidos by José Luís Outono

A palavra na poesia de José Luís Outono é um mar crescente, sobrepondo-se à ausência de marés, palavra repetida de si próprio, sorrisos de páginas livro, amor casulo, naufrágio. Poetar simples d’alma vontade, olhar atento sobre a cidade de Lisboa, berço de sentires e de histórias, espaço relação do autor com a vida. Onde este amadureceu na escrita e nos afectos, em algumas vitórias inglórias, de que a saudade não redige a história.

Nessa vida de desencontro de vontades, as folhas replicam o nosso cair; é o olhar rugoso do Outono descendo sobre nós. Esta é uma escrita em fim de ciclo, um aportar no cais do momento, refeição fingida. Olhar em busca de novos horizontes, consciência de um trilho feito, fome de mundos novos. Um chegar a exigir novos caminhos. Por aqui emergem palavras, esquecidas, ancoradas em tom de fim de viagem e, sempre, um remanescente convite para se tombar num mar repleto.

 

Aplaudem as hienas choros falsos
Gritam os abutres esgares cínicos
Uivam os lobos no moer da carne
E o veneno da cascavel é ouro!

Confessa-se, José Luís Outono, ser “apenas escritor, de momentos provocantes, onde, a sede de gravar no papel confissões e amores próximos, é mais forte que a escala dos abismos…”

Este arar com as mãos, abrindo sulcos – veios de riachos por onde a palavra enseada se solta no danoso grito provocador – responde ao apelo palavra, sem horários, rimas ou métricas.

A palavra silêncio que conjuga gestos de luz, sepulcros, telas por escrever, prontas a receber labiais sinfonias de prazer, até as bússolas aprenderem de novo o magnetismo do sorrir. Aqui, o amor segreda-se.

Rasgo-me só de impossíveis momentos
Para te mimar em perfumes sedentos
Rascunhos eternos de bandeiras vida
Mar meu…sonho e torpor d’alma perdida!

O poeta é o senhor dos sonhos infiéis, aquele que vive ao relento de si.

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