O AssobiadorO Assobiador by Ondjaki

Numa aldeia de velhos, no interior de Angola, onde se observa um estranho ritual de adoração dos burros, chegam dois personagens vindos de fora. O caixeiro-viajante e o assobiador.

O primeiro espreita a aldeia com a consciência de alguém “treinado nos campos da vida”, “vendedor de bugigangas, de objectos para distrair ou encantar”, e o segundo assobia um choro como se tivesse por missão exultar a aldeia a um ritual pagão, catalisador de todas as forças, ele, o assobiador, “ o distribuidor enganoso e exclusivo que a tristeza arranjara para mostrar à Humanidade apenas a sua face bela”.

É o assobiador quem desencanta à pacata aldeia o voo dos pássaros e o seu estranho comportamento, o sonho dos seus habitantes, as portas fechadas da igreja, interdita à curiosidade de todos. O assobiador é um ser invisível, sente-se a sua presença, sabe-se que ele habita aquele espaço como uma profanação e, no enanto, escuta-se o seu assobio como se fosse a fracção do pão, nunca antes dessa forma comungada, tão intensa, tão bela e libertadora.

Esta é uma escrita de grande beleza, para usar a definição de KaLua, diria mesmo poética, como nesta passagem: “O vento trazia ondinhas horizontais e baixinhas, compridas na languidez, belas na sua efémera existência. Dissoxi molhou as mãos, deitou-se entre o fim da arreia e o nascer da água, molhou as pernas também. Virava-se delicadamente para trás e escrevia na areia pequenos gatafunhos indecifráveis. Os gestos repetiam-se e KaLua, espreitando, julgou tratar-se de um poema escrito com a tinta da água, com a caneta humana do dedo, com o conteúdo metafísico da tristeza, com o testemunho da tarde, e, finalmente com a assinatura de Dissoxi, ela mesma… O que viu parecia de facto ser um poema, e não lhe restaram dúvidas que havia jorrado da fonte da tristeza. A disposição das letras, a linguagem irreconhecível, era de uma extraordinária beleza e de um correcto alinhamento estético.”

A vida é um poema de uma escrita indecifrável, conhecemos o seu bailado, pleno de vida e a sua dor é resgatada num assobio que vive entre os muros de uma igreja, no nosso íntimo sagrado (que só certas alquimias conseguem libertar).

Os dois homens partem como se a sua missão naquele local estivesse cumprida, só o caixeiro-viajante se pergunta: “Será que ainda fazem a festa do burro?”, ele que escolheu um dia vir morrer naquele local.

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