O SilêncioO Silêncio by Teolinda Gersão

Silêncio é o diálogo possível deste amor. Lídia fala como se estivesse em diálogo com Afonso. De início, ele tenta traçar os limites, com um fósforo desenha na areia “suponhamos que aqui está a casa… sobre um muro está um gato sentado.” E Lídia logo corrige “Está sentado de costas, olhando para o outro lado do muro…apenas se veem as duas pontas do bigode, saindo de ambos os lados da cabeça.”

Afonso não mais recupera esse controlo, acredita vigiá-la, “estabelecer limites tácitos a todas as palavras… se a mulher que falava tentasse ultrapassá-los, ele obrigá-la-ia a retroceder e a alegar que estava mentido.” Este é um encontro de Lídia consigo própria e só depois com o homem a quem dirige as palavras.

 

Neste diálogo Afonso escuta, nem sempre pertence às palavras de Lídia e ao seu mundo, que se desdobra nas suas memórias, na presença das suas casas e da sua mãe, sempre a mãe. É a sua insatisfação de mulher segura. “Porque ela era tão forte que aguentaria qualquer nota errada ou falsa, tão forte que aguentava repensar o mundo, sem medo de se enganar entre certo errado e falso.”

Afonso é o lado “silêncio” deste diálogo. “…ela abria um guarda-sol na varanda e sonhava debaixo do guarda-sol, ou abria um guarda-chuva na rua, e sonhava debaixo do guarda-chuva, onde ele não pudesse ver a sua cabeça e os sonhos que corriam dentro dela.”
No amor, existem sempre vários níveis de desencontro, este livro de Teolinda Gersão leva-nos ao longo dessas dimensões, numa escrita gulosa que nos obriga a uma constante releitura, ao deleite irresistível de trechos como este:
“Talvez porque a casa girava, era uma espécie de grande girassol voltando a cabeça, e era verão ou inverno conforme ela voltava a cabeça… por vezes nós queríamos brincar mais tempo no jardim e gritávamos: casa, não te voltes ainda… dizíamos isso e batíamos-lhe com ramos secos, e ela voltava-se mais devagar, ronronando como uma gata gigante.”
Existe no silêncio um mundo de palavras que enchem este livro.

 

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