O Teu Rosto Será o ÚltimoO Teu Rosto Será o Último by João Ricardo Pedro

A meio da noite, em plena guerra da Guiné e sujeitos a uma chuva torrencial, dois homens travam um diálogo. Estão ambos sujeitos às mesmas contingências impostas pela guerra; molhados, sob a ameaça de uma emboscada, travam um diálogo imposto pelo tenente-coronel António Spínola ao qual responde o furriel António Mendes.

“O furriel António Mendes, com ar de quem acabara de acordar de um sonho, apressou-se a explicar que não se tratava de nenhum exercício militar, e que o único problema que a viatura apresentava era a ausência da habitual capa de lona, extremamente útil quando, como era o caso, chovia.
O tenente-coronel António de Spínola olhou o furriel António Mendes de alto a baixo e perguntou-lhe de onde era.
O furriel António Mendes disse-lhe o nome da aldeia onde nascera e vivera até abraçar a vida militar.
O tenente-coronel António de Spínola perguntou-lhe onde ficava isso.
O furriel António Mendes respondeu-lhe que ficava no concelho do Fundão.


O tenente-coronel António de Spínola perguntou-lhe se ficava a norte ou a sul da serra da Gardunha.
O furriel António Mendes respondeu que ficava na vertente sul.
O tenente-coronel António de Spínola perguntou-lhe se sabia quais eram a origem e o significado da palavra Gardunha.
O furriel António Mendes disse que não, que não sabia nem a origem nem o significado da palavra Gardunha.
O tenente-coronel António de Spínola perguntou-lhe se os seus antepassados também eram de lá.
O furriel António Mendes disse que a mãe sim. A mãe e os pais dela, tanto quanto sabia. Quanto ao pai, nascera no Norte. No Porto.
O tenente-coronel António de Spínola perguntou-lhe se era judeu.
O furriel António Mendes respondeu que não.
O tenente-coronel António de Spínola perguntou-lhe se sabia se a sua família tinha origem judaica.
O furriel António Mendes respondeu que, caso tivesse, ele a desconhecia por completo. A única coisa que podia afirmar com segurança era que tanto a mãe como o pai eram católicos.”

Não existe entre estes dois homens um momento de intimidade. E isso recorda-nos o autor invocando a cada linha, por extenso, as suas patentes. Mesmo na descida aos infernos somos prisioneiros da condição em que fomos investidos.

Esta é uma forma arrojada de escrever um diálogo, repetitiva, redundante, deslocando o centro de gravidade da frase do que é dito para o enunciado de quem fala.

Este romance é estruturado de uma forma pouco convencional, em formato de colectânea de contos, reclamando cada capítulo a sua autonomia. O leitor será surpreendido por uma aparente quebra de continuidade, como se a narrativa fosse um apanhado de corpos estranhos em que apenas os nomes dos personagens lhe dão consistência. Uma estratégia pouco convencional de se chegar ao desfecho final.

Que novos desafios nos trará este autor, vencedor do prémio Leya 2011?

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