Tempo de Subversão - Páginas Vividas da ResistênciaTempo de Subversão – Páginas Vividas da Resistência by Carlos Brito

O branqueamento de Salazar e da ditadura fascista que estavam a ganhar força, por altura de 1998, ditaram a necessidade de escrever este Tempo de Subversão. O sentido desse alerta lançado então à opinião democrática continua hoje, volvidos doze anos, perfeitamente vivo. É desta forma que Carlos Brito, no seu prefácio, nos dá a conhecer as razões da edição deste livro.

Este testemunho de resistência, de inconformidade para com o rumo político e histórico de um Portugal atrasado e pobre, que esgotava os seus recursos numa guerra colonial, sacrificando os seus jovens, está hoje, em tempos da troika, perfeitamente justificado. Carlos Brito recorda-nos que a “A história da resistência ao fascismo no nosso país foi ilustrada por uma atitude geral de firmeza perante a PIDE e por inúmeros casos de verdadeiro heroísmo. (pág.51)” Hoje em tempos de fim dos “direitos adquiridos” que espalham o desemprego e multiplicam a pobreza, voltamos a ter necessidade de homens e mulheres disponíveis para abraçarem ideais e por eles, com heroicidade, resistir.

Os motivos da sua adesão ao PCP e de como mais tarde entrou na clandestinidade são-nos explicados com a simplicidade de quem respondeu ao apelo dos ideais democráticos e com patriotismo resistiu por eles. O registo é tranquilo e de uma acutilante lucidez. Em momento algum se sente um ajuste de contas com algum camarada que tenha tropeçado na sua postura perante a tortura policial ou com a sua história mais recente no PCP.

 

Carlos Brito adianta deste modo as razões da sua adesão à militância comunista: “Mas o Partido infundia-me um imenso respeito. O que sentia, na altura, é que eram simultaneamente a voz da Pátria e a voz da Revolução que me chamavam.”

“A pouco e pouco a ideia de uma vida totalmente dedicada aos grandes ideais e à comunidade começou a seduzir-me, sem dúvida misturada com um certo espírito de aventura que me tocava desde menino.” (pág.43)

Não eram tempos fáceis. Uma polícia política que reprimia qualquer laivo de debate político e era particularmente brutal para com as organizações clandestinas, os comunistas em particular, mantinha Portugal amordaçado. O porte perante a polícia era assim um receio bem vivo de quem abraçava a luta contra o regime de Salazar. A frase, encontrada numa parede da sua cela no forte de Caxias, “O sofrimento passa, a traição fica.” serviu-lhe de mote. Sem nunca se vangloriar, ou recorrer à exposição gratuita da violência física, é com uma grande elegância que Carlos Brito nos relata estes episódios de resistência nos interrogatórios da PIDE ou a sua fuga da cadeia do Aljube em 1957.

Quando a fase pior dos interrogatórios passava eram encarcerados em celas sem luz, de janelas de portadas fechadas, principalmente os presos políticos considerados mais perigosos (leia-se os comunistas). Os jornais chegavam-lhes com as notícias sobre a actividade da oposição ao regime recortadas, abrindo buracos nas suas páginas. Eram as falsas janelas, podia-se intuir o mundo através delas.

Carlos Brito mantém-se fiel ao papel do PCP na luta contra o fascismo, afirma mesmo: “Dominados pela ideia de apoucar o papel da Oposição antifascista e, sobretudo, diminuir o papel do PCP em toda a movimentação que levou ao derrubamento do fascismo, esses historiadores pintam o Movimento dos Capitães, não só independente em relação às forças político-partidárias civis, o que é exato, mas também como que caído do céu, estranho à ação política oposicionista que ocorria no país e praticamente imune à sua influencia, o que é falso.” (pág. 178)

Hoje, este tempo de subversão veio recordar-nos que os direitos só estão adquiridos se estivermos dispostos a lutar por eles e, mais uma vez, precisamos que desça à rua a heroicidade dos que acreditam em ideais de liberdade, democracia e na dignidade do trabalho.

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