Os Sítios de Licínia Quitério

“Terra e mar são sítios que dizemos.
Outros há sem nome e sem morada – desertos”

Começa assim o livro de Licínia Quitério, um livro de sítios, de todo os sítios, dos que se alcançam pelo trabalho da palavra. Em cada poema existe uma “paisagem absurda” e nessa paisagem se inscrevem palavras; não nomeiam, não descrevem, são palavras obreiras de outras realidades. E a realidade de hoje corresponde aos “dias do cerco”, à “pele atormentada do pântano”, onde a voz do poeta se destaca como construtor da nova metrópole, a que se avizinha, procurando ir sempre “Mais alto, que a terra é pouca e o céu é vasto”.


Os poemas nascem, “Pedra a pedra, homem a homem, dor a dor, chicote a chicote…”, porque os sítios permanecem para além da memória do nome que lhe demos. Restam as pedras despidas de humanidade e o dizer do poeta:

Hoje há chuva de estrelas.
Só no escuro as veremos.

Estamos na presença de um percurso sobre as pegadas da nossa humanidade, como no poema 28 que nos fala das torres que erguemos.
Construímos as cidades e nelas guardamos a nossa civilização, os nossos ganhos de humanidade. Construímos cidades como torres e dotámos essas torres de olhos vigilantes. Deixámos de contar as luas que passam e a ambição que cresce, mais insaciável que a fome. Um dia, que será o advento da noite, a torre esmaga-nos e a lua, como certas verdades intemporais, regressará ao seu ciclo natural. Talvez estejamos a viver um fim de ciclo, o nosso, que a natureza sobreviverá à memória dos nossos nomes. Será o renascimento na “gravidez aveludada das mulheres”.

Tudo o que de mais existe nos acompanha, parece ser o que nos diz o poema 45. Os cães da noite, silenciosos, distantes como todos os perigos, espreitam. Um silvo nos canaviais desafiando as noites mornas. Um dia, incrédulos, questionaremos esse tempo. Como foi possível? Se havia sol, vozes rubras e olhos limpos? Se os cães estavam calados? Como foi possível?
Atravessamos os tempos da lama, vendemos a nossa indiferença e acordámos ladeados pelos cães da noite.

São os cães da noite
calados e frios
como peixes de vidro.

Os sítios são os nossos passos nas palavras que registam os seus ecos.

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