A grande arteA grande arte by Rubem Fonseca

Este livro vive de dois protagonistas que travam uma luta entre si. O desejo de vingança de Mandrake e o destino que parece empenhado em lhe roubar essa satisfação. Advogado, Mandrake, lança-se numa aventura em busca dos dois homens que o feriram e abusaram da sua namorada. Envolve-se numa sucessão de equívocos e coincidências, onde o destino acaba por impor a sua versão, revelando toda a inépcia do causídico como detetive. Os seus inimigos caem, mas não pela sua acção directa. O destino, como se fosse um reflexo da sua forma cínica de ser, brinca com ele, pregando-lhe partidas.

O narrador, que considera ser a “conjectura uma presciência artística”, sente a necessidade de se justificar. “Eu não queria esquecer, era bom lembrar e odiar.”


Fiel ao género literário, Rubem da Fonseca, dá-nos uma falsa primazia pelo diálogo. Um discurso rico e pleno de referências literárias, emprestando aos seus personagens aspetos da sua própria personalidade. Não satisfeito com a pobreza natural do discurso que encontra nesse submundo, lança mão dos seus gostos pessoais e da sua forma de falar. Veste os seus personagens com um tom que lhe é familiar. Mandrake é o narrador na primeira pessoa, mas quando não está presente, a narrativa salta para a terceira pessoa, baseada em conjeturas que o próprio tece a partir de cartas e cadernos que providencialmente lhe caíram em seu poder. Este contar a história, através de uma aptidão única para interpretar o que os outros escreveram, torna-se num alibi seguro para as suas próprias faltas. Lançando-nos na dúvida sobre a sua sinceridade. Mente para nos esconder algo? Prefaciando o autor: “Este modelo teve a virtude de distribuir entre todos a ansiedade da incerteza”.

Tudo em Mandrake gira em torno de si mesmo, o seu lado promiscuo é entendido pelo próprio como uma grande generosidade, através de uma entrega sem reservas às mulheres. Delas conhece-lhes o cheiro, o batimento cardíaco e a forma de lidar com seu líbido. “O cheiro do sovaco de Ada, quando ela estava sem desodorante, me deixava muito excitado.”

«Estamos procurando uma comunhão voluptuosa.»
«Só isso?»
«Corpos e almas fruindo, sem buscar nenhum produto.»
«Só isso?»
«O esplendor, o fausto da foda.»
«Só isso?»
«O que mais você quer?»
«Eu quero ser sua amiga, também.»
«Você é minha amiga.»

A grande arte nasce da primeira narrativa de todas, a morte de Abel às mãos de Caim. A morte, às mãos do outro, tem “fascinado artistas desde que o homem desenvolveu uma linguagem mais complexa para expressar as intrincâncias da sua essência”. A opção pela faca, como instrumento de morte, em que as mãos são chamadas a aplicar o derradeiro golpe, é a escolha óbvia. Nenhuma outra arma invoca esse lado primitivo de proximidade no ato de matar, um corpo a corpo.

“Todos os grandes personagens da literatura são assassinos”. Rubem Fonseca conta-nos uma história sobejamente conhecida, fiel aos cânones do género literário, mas subvertendo qualquer déjà vu, numa narrativa absolutamente viciante da primeira à última página. Esta é uma escrita que nos remete para o papel de entretenimento do romance, não pelo lado da acção ou da historieta, mas pela forma como a narrativa é construída e a história chega até nós. Eis a grande arte da escrita.

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