Rio de doze águasRio de doze águas by Antonio Gil

Doze poetas uniram as suas vozes no leito de um rio a doze águas. Um rio de afluentes, feito de sensibilidades distintas, escritas de um eflúvio pessoal e cantos de água solta. Como prefacia Joaquim Pessoa: “E o que não souberes e o que não entenderes, canta.”

Esta é uma iniciativa da página do Facebook, Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen, que deu corpo a este caudal a doze vozes, doze vezes sete poemas inéditos encabeçados por doze foto-poemas. Fotos a preto e branco que nos enlevam o olhar, um olhar que suscita leituras, onde a foto não é mais o que se vê, mas a imagem trabalhada no poema. A foto do céu que se deita sobre a linha do horizonte, repousando sobre o mar, que se recolheu desnudando as rochas que se afundam na areia da praia, recebe: “Aos meus passos sem sombra // o teu corpo trouxe consigo a maré.” (Lília Tavares sobre uma foto de José Alpedrinha)


Sobre a importância destas iniciativas que nascem nas redes sociais, Joaquim Pessoa não deixa de nos alertar com o seu sentido crítico: “A democratização da comunicação, cada vez maior, cada vez mais perto, cada vez mais acessível, mais fez acentuar a frase feita (de que somos um país de poetas) porque, na verdade, muita gente acha que alinhar uns versos, brancos ou com rima, e publicá-los seja onde for, transforma os seus autores em poetas. E sabemos que, definitivamente, isso não é assim.”

E ainda: “Uma Antologia deste tipo, não de autor, mas de autores, é sempre um verdadeiro caleidoscópio, pelos seus registos tão diferenciados, pelos seus matizes, pelo tom dos discursos, e pelo colorido tão pessoal de cada um dos poetas participantes.”

Não é assim possível, no âmbito desta crónica, abarcar esse caleidoscópio, tão somente lançar no ar a contaminação do assombro por desvendar este livro, um convite para mergulhar neste universo e beber da sua cor na escrita dos seus poetas.

Escrevo a criação da fala
Onde a pele é mais brilhante e luminosa
E o universo se acolhe.
(excerto de “O Próprio Ser” de Joaquim Monteiro)

Existe neste rio um mar. Um mar como fim do seu percurso, que é o destino de todos os rios. Um mar do tamanho da vida que só a poesia é suficientemente vasta para conseguir abarcar. Sobre esse mar, descansa, insaciável, o nosso olhar.

Há …
Um poema que sinto
Há …
Uma palavra que minto
Há …
Um amor que tarda
Neste labirinto
De nada!
(Há um Poema, de José Luís Outono)

Poetas:
António Gil, Carlos Campos, Cláudio Cordeiro, Francisco Valverde Arsénio, Joaquim Monteiro, João Morgado, José Gabriel Duarte, José Luís Outono, José Maria Almeida, Lília Tavares, Maria João Saraiva e Paulo Eduardo Campos

Fotógrafos:
Afonso Mello e Costa, Alexandra Wolfs, José Alpedrinha, José Luís Outono, Helena Maria de Oliveira, Paulo Eduardo Campos, Ricardo Pereira, Rita Pais, Pedro Galhano, MariaM, António Tavares, Inês Saraiva

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