O Repórter do KiribatiO Repórter do Kiribati by Henrique Monteiro

Neste livro alguém alicia o autor a escrever “O Repórter do Kiribati” alegando tratar-se de uma obra-prima. Lemos as passagens de um livro que ainda não foi escrito e que alguém tenta convencer outro a escrever. Aliás, o autor, num dos seus interlúdios declarativos, reclama estar a transcrever o que lhe foi ditado, recusando assumir-se como narrador.

Logo nas primeiras páginas somos instruídos quanto à resposta a dar em relação ao teor da obra que se está a escrever. Somos aconselhados a uma resposta dúbia, mas que seja capaz de abarcar o “todo” que é o sumo das grandes obras-primas da literatura mundial.

O tema do Repórter do Kiribati é a verdade, o que tratando-se de uma obra sobre um jornalista (John Slide) deixa logo antever um fino sentido de humor.

Desde o início que o autor considera ser este um “excepcional romance!”, uma “obra-prima”, crença que a meio do livro já vai em “tendencial obra-prima” ou mesmo “romance de grande fôlego”, para, na página 189, já ser referido apenas como um “romance”. Este tipo de considerações, em que o livro é muito rico, oferece-nos a possibilidade de uma leitura alternativa.

Com efeito, vivemos tempos em que todos os escritores dão cursos de escrita criativa. Este Repórter de Kiribati é um fabuloso manancial de técnicas para a escrita de um romance que seja uma obra-prima ou, no mínimo, um romance de grande fôlego ou até, apenas, um romance. O livro está dividido em capítulos temáticos: As personagens, Os locais, Namoro casamento e uniões de fato, etc…

No capítulo dedicado às personagens, a forma como o John Slide é descrito entrará seguramente para os manuais da melhor escrita criativa: gordo, suado e amachucado.

Sobre os locais, encontramos o recorrente conselho de nunca se escrever sobre o que não se conhece ou sítios onde nunca se esteve. Deu-se a feliz coincidência do autor já ter estado em quase todos os locais, até em Springfield onde permaneceu umas horas entre voos de ligação, na sala de espera do aeroporto.

A pesquisa rigorosa sobre os factos e historial dos personagens ocupa uma parte significativa desta obra. São exemplos práticos que servem de guia a qualquer novel escritor (apesar de o autor não gostar da palavra novel). Assim, pela consulta da lista telefónica de Springfield, o autor encontrou dezanove Goldstein, pista importante que não seguiu por falta de tempo e verbas, mas que não deixou de valorizar e partilhar connosco.

As questões religiosas e a posição em relação ao consumo de drogas – dois assuntos que o autor esclarece não estarem diretamente relacionados, mas que, mesmo assim, junta num único capítulo – oferecem-nos mais uma série de dicas de grande valor. A propósito da religião do pai de John Slide, a subtileza desta frase atesta as inegáveis qualidades literárias da obra: “Porém, sabendo que ele se chamava Zambrone e era ligado à Máfia, deu consigo a pensar que o mais certo era ser adepto da Igreja Católica Apostólica Romana.”

Outras técnicas visam desmascarar os que alegam conhecer ou escreveram sobre a obra sem nunca a terem lido. “Uma das formas, aliás, de saber se eles leram o livro todo, é semeá-lo de armadilhas nas badanas e no primeiro capítulo; se nelas caírem, é porque não leram, nos capítulos subsequentes, as respectivas explicações”. (Em minha defesa, declaro não ter caído nesta armadilha. Na página 38 é afirmado que John Slide entrevista o presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, quando na realidade entrevistou o presidente Samora Machel, como se descreve na página 201).

Existem várias dicas a serem observadas na afirmação da verosimilhança de uma obra, aproximando-a do tom da época em que se desenrola a ação. Deste modo, termos como o “tanas” e o “badanas” são resgatados dos confins da memória do autor. As referências à licença para uso de isqueiro e às tatuagens dos militares a dizer “Amor de mãe” são perfeitamente datadas e contribuem para credibilidade da obra.

Existe também a acção deste possível romance que se desenrola em torno de John Slide, um jornalista que estando em Portugal no 25 de Abril, consegue o furo de ser o primeiro a dar a notícia ao mundo, relatando-a como um golpe de direita perpetrado pelo general Kaúlza. Não mais parou de somar sucessos e só não ganhou o prémio Pulitzer porque, num momento irrefletido, acaba por publicar uma verdade. A verdade, o objeto prometido do livro, é assim trazida a debate, seguindo princípio sagrado de se dar ao leitor o que este espera, mas não da forma esperada. A verdade surge dentro de um debate filosófico alargado, desde a forma como é percepcionada, se pelo emissor, se pelo receptador, até ao seu postulado como uma construção social.

O leitor encontrará neste Repórter do Kiribati a feliz coincidência de ler um romance muito bem conseguido, repleto de sentido de humor e, simultaneamente, dispor de um manual de escrita criativa. Depois de o ler qualquer um estará preparado para escrever um bom romance ou, em alternativa, assassinar uma boa história que poderia dar um bom romance, quiçá uma obra-prima. Boa sorte.

PS: Os manuais de auto-ajuda ou de escrita criativa vendem muito mais do que os romances, por isso estou certo que o Henrique Monteiro acabará por me agradecer este texto.

Anúncios