Revolução ParaísoRevolução Paraíso by Paulo M. Morais

Revolução Paraíso é o primeiro livro de Paulo M. Morais. Um relato bem documentado dos dias que se seguiram à Revolução do 25 de Abril. Estamos perante um fresco desse período num olhar feito a partir dos jornais, a começar pela Revista de Portugal que pretende ser a voz do povo e dos seus afetos, recusando-se ser o eco das politiquices que invadem o resto da imprensa. Dar voz ao povo era a sua missão; mas, pelo caminho, deixa cair a questão colonial por imposição do seu proprietário.

O clima revolucionário lança a agitação no seio do jornal. No seu pequeno corpo técnico e redatorial instala-se a mudança imposta pelos ventos da revolução. Um operário, Adão, operador da grande máquina de linótipo, transforma-se no mais inesperado de todos os personagens.

Eva é a sua paixão, uma mulher de letras com um improvável dom para as palavras. Frases como “Amámo-nos como dois peixes a lutar pela vida num rio turbulento, em pânico de cairmos na catarata das paixões extintas.”, ou “Montou-me como um violador e verteu-se sobre mim. Gelou-me os caracteres com a frieza do seu sémen e depois rebolou para o lado, comprazido, num ressonar imundo.”, saem da sua boca, contrastando com um Adão, inseguro e nada dado ao dom da palavra.

Adão, a quem a revolução passa ao lado, ou passaria se um PIDE escondido não tivesse aparecido para lhe infernizar a vida. Um Adão colecionador de carateres.
Em Eva inaugura um lado sacrificial e redentor da humanidade, é a sua revolução pessoal. Tomando Amália, a “fadista muda” como é conhecida a prostituta caída em desgraça, como sua nova Eva, Adão colocará em ação a sua cruzada redentora alimentada a partir da leitura do Génesis. Uma interpretação fanática e distorcida do escrito bíblico. Ele é a imagem da agitação que graça nas ruas. Também aí, um povo sem formação política e de poucas leituras, lançará uma cruzada pela regeneração do país, expurgando-o de todo o pecado fascista.

Este é um livro de memórias. Podia ser um livro sobre a amizade, mas o desfecho no prédio do Ramalhão afasta essa hipótese. Ficam-nos as memórias do período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974. Quem viveu nesse tempo ou apenas ouviu falar dele, encontrará aqui a reconstrução dos ambientes e dos excessos que foram cometidos. Viveu-se um sonho delirante, de quase utopia por uma sociedade nova, mais justa e mais fraterna. Tínhamos entre mãos um projeto “Eva” e tal como Adão, por ignorância ou obscurantismo, deitámos tudo a perder. Ficou um paraíso por se cumprir. Este relato é o seu testemunho.

Anúncios