Cartas de Casanova - Lisboa 1757Cartas de Casanova – Lisboa 1757 by Antonio Mega Ferreira

António Mega Ferreira encontrou seis cartas de Casanova escritas – em francês – a partir de Lisboa, no ano de 1757 (dois anos após o terramoto) e acrescentou-lhes umas brevíssimas notas de rodapé, dando-lhes corpo de livro. Bem que podíamos apresentar este livro desta forma.

Em 1998, afogueado com a insistente pergunta sobre os seus projetos a seguir à Expo 98 (que liderou), AMF respondeu ter como propósito traduzir a “Histoire de ma vie” de Giacomo Casanova. Não o chegou a fazer, mas acrescentou-lhe seis cartas.

O romance “Cartas de Casanova, Lisboa 1757”, a que o AMF deu uma forma epistolar (tão ao gosto do séc. XVIII), preenche um hiato de três meses, em que nada é referido na “Histoire de ma vie”. O que fez Casanova nesses três meses? Segundo AMF esteve em Lisboa.

O que levaria um homem como Casanova, habituado aos prazeres da vida e aos mais luxuosos salões da realeza europeia, deslocar-se a Lisboa? Uma cidade destruída pelo terramoto de 1755, onde o rei e a sua corte viviam em barracas de madeira? Segundo o próprio, a promessa feita a uma jovem e uma missão que lhe foi confiada pelo seu patrono que, estando ao serviço do rei de França, pretendia informações sobre o todo-poderoso Sebastião de Carvalho, ministro do rei D. José.

Neste livro AMF destrói dois mitos. O de se confundir Casanova com um D. Juan, dando-nos a conhecer um homem culto, a par das teorias mais evoluídas do seu tempo, quer filosóficas quer científicas, um apreciador da boa poesia e da boa música. Também um conquistador de corações femininos. O livro apesenta-nos momentos de grande erotismo sempre tratados com elegância e decoro.

O outro mito é o de ter sido o marquês de Pombal quem reconstruiu Lisboa a seguir ao terramoto. Sebastião de Carvalho terá tomado todas as providências nesse sentido e mandado utar os estudos necessários à reconstrução da cidade. Mas, em 1757, Lisboa encontrava-se reduzida a escombros e os trabalhos de remoção e limpeza ainda não se tinham iniciado.

O autor não entrega a narrativa aos caprichos de Casanova, intervém quando julga conveniente, seja para corrigir um desvio ou alguma imprecisão. É nas notas de rodapé que verdadeiramente encontramos o autor António Mega Ferreira.

A opção pelas cartas, sem deslocar o narrador do centro da acção, transforma-o num cronista de época. Temos assim um registo muito vivo de uma Lisboa de meados do século XVIII. Consoante o destinatário da carta, o olhar de Casanova oscila entre o mundano, a vivência no seio da fidalguia ou aspectos da governação do reino. Não seria de esperar uma apreciação lisonjeira. Casanova considera os portugueses, na sua generalidade, incultos, sem espírito e nada galantes. Sobre a nossa nobreza, confessa a sua “impaciência perante a boçalidade satisfeita destes fidalgos de pouco mundo e nenhumas luzes”.

Casanova conta-nos, de forma recorrente, o relato da sua fuga da mais terrível prisão europeia, os Piombi de Veneza. Pela reacção dos presentes, seguimos esta história sem nunca o escutarmos. É um olhar de cronista de sociedade que nos oferece um retrato fiel da qualidade da sua audiência. A nós, leitores, é-nos negada a descrição da fuga de Casanova, “uma proeza que tinha tanto de temerária quanto de atlética.”

A possível presença de Casanova numa Lisboa pós terramoto foi o mote para este romance. António Mega Ferreira usou-o para recriar um período histórico, conferindo mistério e charme a uma cidade moribunda. Um declínio do qual o país parece ainda não ter saído.

Texto no PNet Literatura

 

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