O Rei do Monte BrasilO Rei do Monte Brasil by Ana Cristina Silva

“Hoje foi um dia excepcionalmente positivo porque soube que estás morto”. (Gungunhana quando soube da morte de Mouzinho de Albuquerque).

Este é um livro sobre dois homens caídos em desgraça. Dois homens que sofreram uma derrota pela posse de uma mesma terra, embora um deles tenha saído vencedor sobre o outro.

Mouzinho, pela razão do Império e gozando da proteção do Deus Cristão subjuga, ao serviço do rei, as tribos rebeldes aprisionando o régulo Gungunhana (mesmo contra ordens superiores). Nunca hesita no uso do chicote ou no fogo das suas armas. Para ele tudo assume um carácter defensivo face à legitimidade de se encontrar ao serviço do rei e do império.

No dia em que desembarca com Gungunhana na Praça do Comércio, não é só o régulo Moçambicano que se encontra perdido, também Mouzinho o seguirá na sua sorte. Incompatibilizando-se com os burocratas que desde Lisboa pretendem regular um mundo exótico, Mouzinho demite-se do cargo de governador de Moçambique. O rei concede-lhe o inócuo cargo de preceptor do príncipe herdeiro, honra que não pode recusar. Mouzinho, acompanha assim Gungunhana no seu exílio. Também ele é desterrado para fora de Moçambique.

Gungunhana é exilado nos Açores. Na floresta do Monte Brasil encontra as paisagens que lhe devolvem uma pálida imagem da sua terra natal, transformando-se num “preto velho à caça de coelhos.”

“Por detrás do teu rosto já não existe ninguém.” Gungunhana acredita na ação dos espíritos e na sua proteção, e vê agora o seu captor perdido nesse mundo à mercê dos seus antigos inimigos. “… aqueles que mataste ressuscitaram todos ao mesmo tempo para lutarem pela posse da tua alma… Ocupas decerto um lugar cimeiro entre os demónios!”

Mouzinho, que detesta a vida da corte, imersa em hipocrisia e intrigas, virá a desenvolver uma paixoneta pela rainha D. Amélia. Dividido entre a lealdade ao rei e a sua paixão, caído em desgraça, morto o seu sonho de um projeto imperial para Moçambique, Mouzinho não encontrará mais sentido para a sua vida. Suicida-se dentro da sua caleche nas ruas de Lisboa.

Mouzinho podia ser o europeu civilizado e Gungunhana um selvagem, mas o segundo demonstra um mundo interior da dimensão das paisagens africanas. Na mente de Mouzinho não abundam esses espaços. É uma mente dos corredores do paço real. Demónio errante, habitando no crepúsculo dos dias, Mouzinho encontrará nas reflexões de Gungunhana o seu maior tributo. Se não o tivesse capturado e trazido para Lisboa, num gesto inútil que em nada contribuiu para o imponência do império português em África, nunca teria entrado na história.

A escrita da Ana Cristina Silva precisa dessa imensidão do olhar, dos grandes espaços e do desassombro de mentes poderosas. Nunca nos sentimos tão próximos de Mouzinho como de Gungunhana. Se do primeiro nos despedimos numa frase “Depois, como se arma fizesse parte do meu braço, entramos juntos na morte.” Do segundo, debruçamo-nos sobre o seu leito de morte e recebemos com reverencial silêncio o seu último suspiro, deixando espaço aos velhos de África para que comecem a “trocar por palavras a minha (sua) vida, contando longas histórias em redor das fogueiras.”

Neste livro, Gungunhana encontrou o seu lugar entre os grandes reis da nossa história.

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