O SuplenteO Suplente by Rui Zink

“Ele fora o suplente com o qual treinara para o jogo verdadeiramente importante.”

Este livro fala-nos da dor da perda. Da dor para a qual não existe um suplente no banco, pronto a entrar para repor o equilíbrio. Este livro não é sobre futebol.

Com um impecável sentido de humor e não menos brilhante sentido de observação, Rui Zink mostra-nos como os portugueses discorrem dobre os fatos fundamentais da sua vida com o recurso a frases feitas. “Um meio caminho andado para a cura”, “fazemos o que podemos e a mais não somos obrigados”, ou “entre marido e mulher não metas a colher.” Como se estas frases fossem um arremedo para a nossa falta de cultura. Uma incultura que nos impede de reflectir ou de nos expressarmos pelas nossas próprias palavras. Ou então, por humildade típica dos simples de espírito que não arriscam uma ideia, preferindo o efeito garantido de uma frase gasta.

A ação decorre do encontro trágico entre duas famílias, a do comentador de futebol Paulo Gomes e a do senhor-quadro-superior-no-banco Hélder. Um momento que não devia ter acontecido e para o qual nenhuma frase feita serve de paliativo.

Estamos em plena época de crescimento económico. Graças aos fundos comunitários, nasce uma florescente classe média “saltando diretamente da carroça para o Porsche”. Uma época onde “rezar significava apenas desejar muito muito forte”.

Não se trata de uma visão mordaz da nossa sociedade. A lucidez e o humor da escrita, aponta-nos para uma sociedade onde acreditamos que, a todo o momento, o treinador fará aquela substituição que nos permitirá ganhar o jogo. Uma fé no suplente.

À saída do parque de estacionamento, Paulo Gomes sente que bateu em qualquer coisa. Nesse momento de pânico, como uma prece, só um pensamento lhe ocorre:

“Só espero que não seja um cão.”
“O seu desejo foi satisfeito. Não era um cão.”

O tom ligeiro e o sentido de humor podem dar uma ideia errada de uma escrita fácil. Mas não se deixem enganar, o autor é mestre naquilo que faz. As imagens são muito bem conseguidas: “Apagado, o televisor é apenas um rectângulo baço, como as janelas das viaturas oficiais.” A sociedade vista a bisturi, desde o papel do ciúme, à paciência dos avós, passando pelas antecâmaras dos hospitais, onde só quem lhes sobrevive passa à etapa seguinte, a de ser uma preocupação dos médicos; às recolhas de fundos para obras de beneficência, “daquelas em que os únicos beneficiados são os organizadores e os convidados a apoiar a luta”. E finalmente a dor. A dor sentida por gerações diferentes, a dor de pai, a dor de mãe, a dor vista pelos amigos e pela (nossa) sociedade. Conforme o autor nos confidencia, é uma pessoa dividida entre a pulsão artística e a intervenção cívica. Não seria de esperar outra coisa.

Na nossa ansiedade, procuramos dar aos nossos filhos uma vida melhor, proporcionar-lhes aquilo que nunca tivemos. Eles são os suplentes para a vida que nos faltou, a tal vida que não chegámos a viver. A vitória no campeonato seguinte. Nos filhos depositamos toda a nossa esperança e se o desejarmos muito muito, isso transforma-se num ato de fé. Toda a desculpa para o nosso desapontamento.

Não devíamos pedir muito aos nossos sonhos. E muito menos que se transformem em realidade. Este livro, felizmente, não é sobre futebol.

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