A Verdadeira Vida de Sebastian KnightA Verdadeira Vida de Sebastian Knight by Vladimir Nabokov

Esta é a história de um homem que parte em busca da verdadeira identidade do seu meio-irmão, um famoso escritor inglês de origem russa, o recém-falecido Sebastian Knight.

Sempre que abre um livro do irmão, o autor-narrador revela-nos recordar-se do seu pai. Nesse momento, vê-se planando acima do chão erguido nos seus fortes braços. Como se muito do que Sebastian tivesse vivido e disso alimentado a sua escrita, fossem as próprias vivências do seu meio-irmão. Uma simbiose entre os dois que nem o tempo nem a separação conseguem iludir.

Um dia em Paris, num fugaz encontro entre os dois, o ronco de uma camioneta fez levantar em voo, de um dos frisos de pedra do Arco do Triunfo, um bando de pombos. Mais tarde encontraria essa imagem num dos livros do seu irmão, “essa pedra fundindo-se em asas”. São estes apontamentos que nos envolvem na missão que o autor-narrador persegue, a de escrever a verdadeira história do seu irmão.
É de novo a criança que corre no encalce da bicicleta de Sebastian, “…faço tudo o que posso para me manter a par da roda traseira da bicicleta que faz tiquetique e crepita, mas ele não me liga nenhuma e em breve me deixa irremediavelmente para traz…”

As adversidades da vida os afastaram, colocando-os a viver em países diferentes. Depois da morte de Sebastian, cabe ao senhor Goodman assumir o papel dessas adversidades. Antigo secretário particular do escritor, Goodman escreverá uma biografia nada favorável, nem à sua obra nem ao seu carácter. Mais uma pedra no caminho do autor-narrador.

Na sua pesquisa precisa de encontrar duas mulheres, Clare Bishop e uma desconhecida. Uma mulher mistério cujas cartas, ao serem queimadas, revelaram, por momentos, parte de uma frase “a tua maneira de sempre encontrar…” O autor-narrador não se fixa no sentido daquela frase, mas no fato desta estar escrita em russo. A mulher que procura é russa.

Este é o primeiro romance escrito em inglês por Vladimir Nabokov, também ele de origem russa. Provavelmente, tal como Sebastian Knight, lhe aconteceu ficar “escarlate quando, por algum defeito de elocução, um ouvinte mais obtuso não compreendia bem uma frase sua.” Advinha-se um lado autobiográfico nesta obra. Nabokov não entrega o papel de narrador a Sebastian Knight, mas a uma terceira pessoa; não um completo estranho, mas um seu meio-irmão. Estabelecendo assim um triângulo de cumplicidades. Talvez Nabokov se tenha desdobrado nos dois personagens: Sebastian e o seu meio-irmão, o narrador do livro.

A meio deste romance, Nabokov, perde-se numa extensa análise da obra literária de Sebastian knight . “Pertencia a esse tipo raro de escritor que sabe que nada deve sobreviver senão a obra perfeita”. Este processo de recriação de uma obra literária a partir da sua crítica, embora notável, rouba ímpeto à leitura deste romance. Sobre a escrita de Sebatian Knight temos uma descrição rica em imagens. Vale a pena reproduzir a explicação de um dos métodos usados pelo autor, designado por “métodos de composição”, “…mostrar-vos não a representação de uma paisagem, mas a representação de várias maneiras de representar determinada paisagem, esperando que a sua fusão harmoniosa revele a paisagem como quero que a vejam.”

Talvez Sebastian tivesse desejado que o seu passado fosse deixado em paz. Ele deixou instruções para que as suas cartas de amor fossem queimadas. Afinal, “o passado é um nobre combustível”. Para os outros, o nosso passado é tão importante como a “poeira que volteava num raio de sol oblíquo.” À saga da descoberta de Sebastian, junta-se o mistério da senhora russa. Um mundo de equívocos, num quase policial dentro do romance. “Este pequeno logro poderia ter-se prolongado durante bastante tempo se o destino não lhe tivesse dado um pequeno encontrão… Ela vai receber um exemplar deste livro, e compreenderá.”

Esta é a história de um homem que parte em busca da sua própria identidade e termina compreendendo ser “mais prudente deixar estas coisas em sossego, não vão elas, se as matarmos, perseguir-nos como fantasmas.” O passado não é mais do que isso, um sólido combustível entregue à voracidade do tempo.

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