Estorias AbensonhadasEstorias Abensonhadas by Mia Couto

Em tempo de guerra, a terra guardou, inteiras, as suas vozes. Esse parece ser o testemunho deste livro de contos. Moçambique adiou-se durante a guerra civil, secou como terra à falta de chuva, mas não perdeu a sua voz. “Onde restou o homem sobreviveu semente, sonho a engravidar o tempo. …No escuro permaneceram lunares”.

A chuva não esqueceu a sua arte de tombar. “As chuvadas foram no justo tempo encomendadas…” Quando, em 1984, estive em Moçambique, havia quem acreditasse que só após ter sido restituído o poder aos régulos de sangue, as chuvas voltariam a cair. Até a natureza parecia aguardar pela normalidade dos tempos. Afinal, “o sapo não sonha com charco, se alaga nele”.

O fim da guerra e o fim da evangelização comunista, sempre tão disciplinadora do novo homem, libertou a cultura popular, a recreação do sonho. Então eclodiu o imaginário moçambicano, em flagrante infância, para ser aqui captado na escrita de Mia Couto. O linguarejar típico do moçambicano elevado ao nível da literatura, sem nunca abusar das palavras em dialeto. Mia, não é só o recriador da língua, mas também de velhos ditados: “Olho por olho, dente prudente.”

A guerra que desilumina o mundo, faz lembrar o cego Estrelinho, para quem, sendo o dia igual à noite, dormia de ouvido. “O cego agarra o que há e o resto não acontece”. O mundo a ganhar a consciência de acontecer, a aprender a falar de novo, a reconhecer a novidade de viver, para acolher a maiúscula e definitiva Paz. São histórias de se lhe juntar as pernas aos passos. Vão crescendo numa urgência de resgatar toda a harmonia e alegria de viver dos antigos. São os contos da humana paisagem.

“Vou contar a versão do mundo…”

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