AgostoAgosto by Rubem Fonseca

Mattos é comissário da polícia criminal, um “perfeito asa-branca”, o tipo raro de policial que não aceita dinheiro. “Ele tinha a mania contar os degraus das escadas que subia”.
Como um fio condutor de toda a trama, o leitor fica preso ao enredo. Quem acabará por matar o comissário? Os bicheiros, o senador que mantém sob investigação ou a úlcera que ele insiste em ignorar. Como pano de fundo, um Brasil apodrece.
Naquele mês de Agosto, o presidente Getúlio Vargas acaba por cometer suicídio. O povo sai à rua sem saber ao que vai. Pressente-se no ar um fim de ciclo, mas um fim de ciclo sem promessa de futuro. Mattos persegue o seu sentido de justiça e a sua única paixão: a grande música clássica que vai escutando na vitrola. Nos momentos livres, estuda, sem grande empenho, para o exame de acesso à carreira de magistrado. Tudo nele parece existir fora de tempo e da realidade do seu país. Uma negação da decadência em que o Brasil se afunda.

“A ilusão é a perceção deformada do objeto.” Explica-lhe o médico que assiste Alice, a sua ex-namorada. Todo o Brasil parece sofrer dessa ilusão, chorando o assassínio de um oficial da força aérea. Um militar que atuava como capanga de um jornalista e, agora, elevado à categoria de herói nacional. O seu “martírio” serve os interesses de quem quer depor o presidente Getúlio. A responsabilidade moral pelo assassinato, perpetrado pela guarda presidencial, é atribuída ao filho do presidente. Tudo acaba por se precipitar e o presidente é forçado a afastar-se.
Mattos persiste no seu trabalho, como se a lei fosse o último bastião da civilização. Uma fuga em frente. Tenta afastar-se da Alice que ressurgiu na sua vida, procura não complicar muito as coisas com a sua atual namorada Salete, que se julga uma rapariga feia e ignora o seu estado de saúde, como se isso pudesse evitar a eminente intervenção cirúrgica. Um Brasil inteiro ensaia uma fuga, no discurso do falso moralismo das forças armadas e dos políticos, todos espreitando a sua oportunidade.

Apenas Mattos se afinca a passar atestados de pobreza e a libertar os presos por delitos menores. Mattos não é um romântico, mas guardou uma casquinha da ferida da sua mão, para entregar a Salete. Ela entornara água a ferver nele, porque precisava da casquinha para a Mãe Ingrácia fazer um trabalho. Fazer com que o comissário fosse seu para sempre.
Pobre, mesmo quando sobe na vida, não esquece o fedor da pobreza.

No palácio presidencial, Alzira Vargas revista os bolsos do seu falecido pai. Procura a chave do cofre Fichet, cujo conteúdo esvazia antes da policia tomar conta da ocorrência. O Brasil parece não se dar bem com a verdade.

Existe na escrita de Rubem Fonseca um lado negro, uma crítica social que se torna intemporal. O Brasil de todos os tempos retratado num ritmo forte, em histórias de miséria humana que atravessam todas as classes sociais. Uma lista interminável de personagens sem que o leitor se perca. Vidas que se entrecruzam, como se o Brasil fosse um espaço exíguo, como aquelas celas da delegacia que Mattos insiste em ir esvaziando. Talvez o seu erro tenha sido o de julgar encontrar na lei os limites para uma sociedade em degradação.

«Um policial não pode gostar de poesia. Ele tem outros cadáveres com que se preocupar.»

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