As águas livres - Cadernos IIAs águas livres – Cadernos II by Teolinda Gersão

Teolinda Gersão oferece-nos o registo de momentos, reflexões, sonhos e memórias. Por vezes, pequenos contos. São os seus cadernos

A Liberdade de uma escrita solta, ao sabor do acaso. Esses passos leves. Essas águas livres nas quais se mergulha para se sair renascido. A consciência do “valor único de cada instante vivido.”

Existe um olhar que se apropria das coisas fixando-se por vezes no seu avesso. Pensamentos que espreitam a vida sem a objectividade do cronista. Estamos no universo da testemunha, entregues ao seu poder recreativo, sempre fiel à sua forma de ver. “Escrevia muitas das vezes «ela» e não «eu».”

A presença do “Ela”, esse olhar de fora com o corpo de quem escreve de permeio. O domínio temporal do “eu” parece ser mais restrito, apenas a escrita na terceira pessoa se liberta, se torna intemporal. Encontramos aqui notas que são dessa natureza, que ultrapassam o mero registo de uma experiência pessoal.

Estamos perante “O fascinante lado impessoal do modo não figurativo de encarar o mundo.” A máquina óptica que somos, ruminando todos os momentos do mundo.

E são momentos que ficam, sem uma razão aparente, mas que ficam como “hera agarrada à parede.”

São vários os Cadernos que alimentam este livro, sem uma ordem aparente, entrecruzando-se uns nos outros, mantendo sempre a sua individualidade. Temos entradas provenientes do caderno de São Paulo, do caderno dos sonhos ou do caderno de Sintra.

E contudo, adivinha-se-lhe uma disposição, uma ordem da mesma natureza da usada pelo fotógrafo de família, “Ele queria todos numa determinada ordem que não era por idades nem por alturas, que obedecia a um princípio estético indeterminado que ele estabelecia de cada vez e só para aquele momento era válido.”

Quem pegar neste livro e não importa em que página, não mais o larga. Como se não existisse um claro ponto de partida, apenas uma grande desejo de continuar a ler.

Nos romances temos a presença de um narrador, o responsável por esse fio condutor que leva o leitor a ficar preso ao livro. Nestes Cadernos II não existe essa figura, quando muito “…apenas as sombras que ele deixa na parede.”

O que nos prende? Onde está esse fio condutor que nos agarra à sua leitura? Está nessa capacidade de encontrar nas situações banais do nosso dia-a-dia uma qualidade literária única.

Apontamentos como o do louco do metro de Lisboa que vai anunciando as estações à medida que elas vão surgindo e sempre que as portas do metro se fecham, grita “Siga”. “E ele sorria, satisfeito, pelos cantos da boca, fingindo-se humilde e olhando sub-repticiamente de esguelha, porque não queria fazer alarde do seu poder.”

Ou do carpinteiro que vem desbastar uma porta que roça no chão e anuncia, esta porta vou sangrá-la, é ali que a vou torturar.

Quantos momentos passam por nós e neles quantas pessoas com tanto para nos dizer.

Outras notas existem que são fortemente críticas ao momento que a nossa sociedade atravessa, como o da missa negra do supermercado, uma denúncia contra os que empurram “com a barriga o mundo”. São gritos de alerta contra o entorpecimento cívico e moral em que submergimos.

A escrita de Teolinda Gersão é extraordinariamente acessível, vivendo de um léxico comum, é como se existisse um “Apagar as palavras e colocar em seu lugar as coisas.” Emana deste livro uma poesia que nasce do nosso dia-a-dia e nos leva a creditar que atravessamos esta vida cegos para essa dimensão poética, que a maior das aventuras já a estamos a viver. E rejeitemos o ardil com que a nossa sociedade de consumo, tão sujeita ao ditame da moda, nos aprisiona nessa “sensação ilusória de ondular acima do chão, criaturas evadidas do quotidiano e gravitando acima dele, na estratosfera”. Neste livro somos convidados a entrar na dimensão concreta da vida e do sonho.

“Aproximo-me de mim em passos leves. Sei que, em algum momento, vou estar lá.”

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