A instalação do medoA instalação do medo by Rui Zink

Houve tempos, ainda recentes, em que a humanidade parecia ter-se libertado do medo. Foi preciso então intervir. Os Estados começaram a instalar o medo de forma profissional e ao domicílio.

São os medos infantis e os medos adultos. O medo do desemprego, das convulsões dos mercados, da doença, das epidemias virais, da violência, da taxas de juro, do terrorismo e, finalmente, o medo que guardamos em nossas casas. O medo de cada um, não formatado, não homologado. O medo de contrafação.

Em todos os telejornais somos confrontados com o atarracado Sousa a relatar em direto do local a última desgraça e o pivot de serviço, o bem falante Carlos, sempre repetindo as mesmas desgraças, os mesmos chavões (vivemos acima das nossas possibilidades, é preciso baixar os ordenados, é preciso austeridade, reduzir o défice, para nosso bem), os mesmos medos de forma maiúscula repetidos até à exaustão e em todo o tipo de sotaques. São eles os verdadeiros instaladores do medo. São os que batem à porta e anunciam à dona de casa a instalação do medo. Acabam por se esquecer que o medo se desenvolve e que à oferta do cardápio oficial se juntam outros, como o medo de mãe.

Existe então um perigo que espreita o sistema, os que nada têm a perder acabam por se libertar do medo. Como nos libertámos do medo do Deus castigador. “Deus não soube acompanhar a mudança dos tempos”, como explica o bem falante Carlos. Deus foi mais um que não soube sair da sua zona de conforto. O medo de já não termos um Deus de quem ter medo.

A instalação do medo é um processo e já o estamos a viver. Ele precisa da nossa adesão e “é uma categoria”. Para o nosso bem e pelo futuro dos que já não têm futuro. Afinal, fomos nós que pedimos tempos neomedievais. A bem da nação.

Nota: evitei usar reticências neste texto, deixei-as no livro.

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