Debaixo de Algum CéuDebaixo de Algum Céu by Nuno Camarneiro

Num prédio as vidas arrumam-se como livros numa estante. São histórias fechadas em si mesmas, ou nem tanto, porque as histórias têm tendência de ir por onde não devem.

David, o informático, vive de inventar gente, pagam-lhe para desenhar pessoas em código, são os trabalhadores/escravos de um futuro próximo; os que, no inferno, irão arder por nós. Frederico, o miúdo, desenha gente em papel, histórias de lugares para onde fugir. Um mundo que se “dissolve em sombras e cópias imperfeitas do que há”. Marco Moço recolhe na praia objetos que as pessoas vão deixando, outros que o mar lhe traz. Pretende fazer uma máquina que reproduza o som da natureza; encontrará então, a partir da cave do prédio, a liberdade com que sempre sonhou. Todos parecem viver esse avesso do céu que é a nossa vida. Uns mais intensamente, outros meio conformados, como se o tédio fosse música e aquela a sua forma resignada de dançar. Os que criam, procuram lançar as sementes da revolução, desenhá-la em papel, deixá-la a germinar em código ou soltá-la em música.

São as personagens incertas que habitam aquele prédio à beira do mar. Delas não conhecemos o seu passado, também não iremos conhecer o seu futuro. Afinal, “uma história são pessoas num lugar por algum tempo.”

A escrita de Camarneiro é de uma grande coerência literária, desdobra-se em imagens de grande beleza poética, arranca estes personagens ao seu quotidiano, aos seus pensamentos, à intimidade da sua casa. São gente com paredes à volta. Têm todos um pouco uns dos outros, sem contudo o saberem ou se darem a conhecer. São como o padre que resgata o Menino Santo e o apresenta à sua Igreja. “O farol aceso cumpre a luz aos barcos que dela carecem.”

Passamos por todos eles em oito dias, com a promessa de nada sabermos do passado e que nada nos será dito do futuro. Mas, as histórias refugiam-se em encruzilhadas. Para muitas destas personagens a sua vida fica resolvida, medos são vencidos, outros interrompidos. A revolução que sonhavam fica adiada. É o poder da palavra escrita. O padre Daniel faz subir o Menino Santo ao ambão  para que este leia ao povo. São as palavras que são.

“Pode Deus estar certo e mesmo assim não existir?”

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