O Evangelho segundo Jesus CristoO Evangelho segundo Jesus Cristo by José Saramago

Como escrever um evangelho segundo Jesus Cristo, na ótica de um ateu convicto? Com que luz se abordam estas verdades de fé, que recebemos na nossa infância? Deus, na sua versão católica, tem uma omnipresença civilizacional. Nas primeiras linhas se dita o tom do livro e Saramago abre com a passagem do calvário, o sacrifício do Cordeiro de Deus.

O primeiro capítulo inicia-se como se estivéssemos perante uma descrição cinematográfica. A câmara desce do canto superior esquerdo do enquadramento e toda a cena começa a ser revelada. Mas não é uma realidade factual a que assistimos, estamos antes perante uma pintura, onde “nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada.” Uma afirmação plena de verdade: “nenhuma destas coisas é real”. O autor, sem que ninguém se sinta ofendido na sua fé Cristã, usa uma recreação alheia para introduzir a sua visão agnóstica. Saramago termina este primeiro capítulo com uma esclarecedora profissão de fé: “tudo isto são coisas da terra, que vão ficar na terra, e delas se faz a única história possível.” Nenhuma transcendência será de esperar.

O percurso de um olhar desce pelo quadro revelando os personagens, todos retirados da iconografia cristã, é um olhar que lê, que vai relatando. O primeiro personagem é o bom ladrão, de caracóis louros (como os anjos), semblante arrependido e sofrido. Saramago reconhece-lhe “uma dor que não remite”. Mais “retíssimo” será o mau ladrão, esse a quem o autor reconhece um “sofrimento agónico” e, portanto, mais puro, isento da trapaça de “fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade”. A escrita de Saramago reveste-se deste olhar lúcido, um olhar que percorre, que perscruta o interior da alma humana e por vezes se detém num pensamento, para de seguida retomar o seu caminho. Parágrafos extensos que se demoram, presos à ideia que vão expondo, como se fossem adivinhando o fascínio que despertam no leitor.

Como narrador, Saramago aproxima-se da postura deste mau ladrão, sendo que, entre o bom e mau, “não há nenhuma diferença… pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um deles é somente a ausência do outro.” Só a meio do primeiro capítulo, quando a palavra Crucificado é usada pela primeira vez, surge então a cruz. Simão de Cirene, que nos evangelhos transportou a cruz a Jesus, é referido como aquele que “forçado, ajudara o condenado no transporte do patíbulo”. Até aí, a palavra “cruz” é omissa, temos o “patíbulo, o “madeiro” ou a “madeira” que já foi “árvore”. Jesus está no alto da “segunda árvore, lá em cima, no lugar dos ninhos”.

Quando Saramago acede a tratar Jesus como o Crucificado, fá-lo, não como um sinal de fé, mas como artifício literário. Dos três condenados no Gólgota, Jesus “ é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores.” Se tinha em mente despir todo o seu relato da palavra “cruz”, soçobrou perante a força daquela imagem, daquela expressão “crucificados menores”. Um lamento com que aparentemente resgata a humanidade da sombra dos seus deuses. Foi o seu momento de oração.

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