NobelEm jeito de homenagem, publico aqui um texto meu, de 2008, sobre o Memorial do Convento.

A Sete-Sóis retirou-lhe Saramago a mão esquerda porque isso rimava com Deus. Os homens são fracos criadores e o seu entendimento é uma caricatura de Deus; é o homem que se deixa rir de si próprio.

Sabe pouco este criador de textos que, consciente do seu erro, consola Sete-Sóis dizendo-lhe que Deus também é maneta, pois nunca ninguém se sentou à sua esquerda. Presumem muito sobre as coisas de Deus os que, sendo ateus, engravidam de certezas, rivalizando com fundamentalistas, beatos e ratos de sacristia.

A escrita de Saramago estende-se em longos parágrafos, frases que transbordando  pingam na linha debaixo. Aqui e ali surge uma vírgula, que parece segurar o texto, evitando que as frases se quebrem sobre o seu próprio peso e se precipitem no fim da página. Esta escrita é feita de equilibrismo, resultado de um criador que deste ofício de escritor pouco sabe e nunca lhe aprendeu a pontuação. Dizem.
Nunca percebi se as suas frases são longas ou cheias de vírgulas.

O rei, em seus aposentos privados, monta uma réplica de um mosteiro. Os homens, mesmo reis, constroem tudo a partir das suas fragilidades. São crianças em ponto grande e este, em particular, espera que a rainha engravide. De Mafra veio um monge piedoso que se encarregou de tal tarefa, que isto de gerar vida é obra do Criador e destes assuntos, são seguramente mais entendidos, os que cuidam da Sua obra. Fez bem o seu trabalho, o piedoso monge e o rei mandou construir um convento em Mafra como paga da graça recebida. Porque com Deus é conveniente saldar todas as dívidas.

De pouco mais narra o livro porque de passarolas voadoras nem a lenda sobreviveu, nem a serra de Montejunto guarda tal tipo de heresias. Os homens não almejam os céus, desejam apenas elevar-se acima dos seus pares, e para isso constroem passarolas que fazem mover à custa de almas carregadas de pecado. Não porque estas sejam mais leves, mas porque são as que mais aspiram à presença do Senhor. Disso parece saber Saramago que, desta fé, professa um rigoroso afastamento critico, seduzido por um Deus cruel, desconfiado e inseguro. Assim é o Deus dos homens que Lhe são comuns.

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