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Ana Cristina Silva, nos seus dois mais recentes romances, brinda-nos com um interessante confronto entre duas personalidades masculinas. Em ambos os livros, esse confronto desenrola-se ao nível do pensamento, em diálogo omitido, mas não menos doloroso se tivesse lugar ao nível físico, de corpo contra corpo.

N’ O Rei do Monte Brasil, Gungunhana revive a sua ascensão e glória, até à queda em desgraça, aprisionado às mãos de Mouzinho Albuquerque. O rei africano acaba por desfilar na Praça do Comércio como um troféu, uma curiosidade exótica. Gungunhana dedicou também muito das suas reflexões ao arqui-inimigo, Mouzinho. Quando soube da sua morte, escreve-lhe em pensamento, uma carta póstuma. Muito do que nos é revelado sobre a personalidade do militar português assentará nessas palavras. É através de Gungunhana que entramos num mundo interior bastante rico e na exposição desassombrada de si próprio. O régulo traz no olhar e na alma as imensidões das planícies africanas. No seu último momento, prisioneiro que era, será com esse olhar que se despede do mundo. Mouzinho é um homem reprimido pela sua educação e sentido de honra. Será dos dois, o que vive mais aprisionado. É um militar ao serviço de um rei e de um império; do conceito de um império que se perdeu nas intrigas e movimentações da corte.

São dois homens deslocados no tempo. Gungunhana, rei e régulo tribal, já não tem lugar na África ocupada pelos brancos, tal como Mouzinho, com os seus princípios e retidão moral, não encontra lugar ao serviço do rei. Mouzinho acaba por se suicidar. Gungunhana regozija-se com isso, mas também ele nunca mais será o mesmo.

No A Segunda Morte de Anna Karénina, dois homens veem uma guerra interpor-se entre eles (novamente a guerra). Também eles são estranhos à sociedade em que vivem, motivo de escândalo se a sua condição fosse do conhecimento público. Fruto dos seus afetos, são forçados a viver uma vida de dissimulação, reprimindo os seus naturais desejos, que chegam a considerar doentios. Um deles parte para a Grande Guerra, para as trincheiras de França. Encontra na distância o discernimento para assumir a sua própria condição e, isso mesmo, partilha por carta. Estabelece-se um monólogo que só a distância e a guerra permitem. Não é a morte que procura, mas talvez nela exista o esboço de uma cura. Aquele que se condenou ao desterro nas trincheiras de França, será o que encontrará a paz interior; a de saber que a única coisa doentia que tinha em si, era esse constante impulso de se reprimir, para não escandalizar uma sociedade assente em verdades decrépitas.

Nestes dois confrontos, temos uma escrita que dá voz a personalidades diferentes, que se lhes cola com alma e sentido poético. Uma escrita que não desafina, mesmo quando se torna audaz. São palavras que assumem a dimensão das grandes imensidões, transportando-as para o interior dos personagens. Aí, eles encontram verdadeiramente o seu espaço de liberdade. Crescem e renascem, e nós, como leitores, nunca mais seremos os mesmos.

A minha recensão sobre O Rei do Monte Brasil aqui, A Segunda Morte de Anna Karénina aqui.

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