A Torre de VigiaA Torre de Vigia by Ana María Matute

Aguardava por mim, desconhecendo desde que tipo de mundo, ou desde que tipo de tempo.

Sob a suspeita de um pai idoso, nasce, por altura das vindimas, um varão que será votado ao desprezo paterno e aos cuidados de uma mãe ríspida, e do qual não chegamos a conhecer o nome. Apenas, quando as suas feições, ao tornarem-se mais definidas, devolvem ao pai um reflexo da sua própria infância, este lhe concede o direito ao batismo. Não encontra junto dos irmãos qualquer tipo de acolhimento, que o apelidam de fruto repugnante de concupiscências senis.
Neste romance, Ana María Matute, narra na voz do personagem, a história de iniciação de um jovem, de origem nobre, até ao momento em que é armado cavaleiro. Da sua infância até à sua confirmação. Este é o primeiro livro de uma trilogia.


Nas terras de seu pai, as vindimas ocupam um tempo mágico de evocação de memórias e de celebração dos prazeres da vida, são, à sua maneira, um momento de iniciação. O homem mais poderoso daquelas paragens, o barão Mohl, que elevou a linhagem do seu pai à condição de nobreza, reclama parte da produção daquelas vindimas. A seu tempo, reclamará também outro fruto nascido nessa época e, a esse, armará cavaleiro.
Escorraçado pelo pai e irmãos, o jovem crescerá por sua conta, resultado do enclausuramento voluntário da mãe numa abadia vizinha. Receberá instrução de armas de um velho guerreio, o Krim-Guerreiro, e ser-lhe-á atribuído, a mando do pai, uma montada, o Krim-Cavalo.
Duas mulheres, acusadas de bruxaria, serão queimadas numa fogueira; a mais velha lança-lhe, com o olhar, uma maldição. O cheiro a vides queimadas, a céu molhado de chuva e vinho, envolve todo o seu ser, para todo o tempo, esse será o sabor do dia em que nasceu.

Foi desse modo que, pela primeira vez, vislumbrei a cor branca e a cor preta que haveriam de me perseguir a vida inteira e que, na altura, julguei que cindiriam o mundo inteiro.

O tom do livro está traçado. Em plena época medieval, de cavaleiros, ogres, soldados e servos, se constrói esta história de um jovem tocado por ventos de outros tempos, destinado a vencer toda uma série de perigos. Sobre ele incide a ampla sombra da ameaça constante dos seus três irmãos.

Podíamos considerar que estamos perante um tipo de literatura de entretenimento, com todos os condimentos do fantástico a que se presta o imaginário da época retratada. O que é verdade. Mas, a escrita de Ana María Matute é uma espada mágica, exclusiva à iniciação dos leitores da mais pura linhagem. Uma escrita poderosa que invoca os elementos da natureza para construir um personagem que acreditamos predestinado a ser um anjo da guerra, alguém que na carnificina se ergue acima dos homens. Assistimos ao seu crescimento, aos seus medos e delírios, à consolidação da sua força e à reflexão que faz acerca das contradições e mistérios da vida. Com o tempo, entenderá que são visões de uma época que não é a presente. Que certas forças do passado o revisitam. Aprenderá a enfrentá-las, mas, sobretudo, aprenderá que, de certa forma, também a elas pertence. Nesse processo, ainda uma criança, surpreende-se com o fato de também ter uma alma. Descobre que grandes coisas nos pertencem sem que as tenhamos conquistado, são-nos inerentes, como por um direito de linhagem. Este jovem acaba por ter nos elementos da natureza os seus primeiros companheiros, de os sentir como se fossem uma extensão de si próprio, sentir ter por pele a terra inteira. Existe na sua natureza uma estranha intrepidez, de quem não ama nem odeia, e que gera confiança nos outros.

Um medo o persegue, não se tratava de temor face à morte, ou face a criatura alguma: trata-se de algo atroz e difuso, que me fazia tremer, como que possesso. Esse medo, não físico, tem a forma de uma revelação, de um vento que sopra desde a sua infância, apresado e observador, onde ardera uma árvore humana. Esse medo será vencido no dia em que se der a revelar e, então, será o ordenado cavaleiro.

És a imagem invertida do mundo, diz-lhe o vigia. Na torre de vigia se completa este caminho iniciático. Aí descobre que o vigia vê sem compreender, enquanto ele consegue interpretar o que os seus olhos avistam. Vislumbra que o fim do mundo não é o triunfo da morte ou das trevas, mas também não é o triunfo da luz. Propõe-se então combater a fúria de que se fazem as guerras. Homem errante, sobrevivente de si próprio, perdido no silêncio da terra inteira: de todos os mortos e de todos os deuses esquecidos.

Depois, girando como uma grande nora, o vento levou os seus despojos de morte para outro ponto do mundo.

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