O Profeta do Castigo DivinoO Profeta do Castigo Divino |Pedro Almeida Vieira

Logo no antelóquio, o autor despede-se do seu romance entregando-o a um narrador, justificando-se o melhor que sabe. Em abono do narrador, salienta as suas muitas qualidades que lhe permitem testemunhar acontecimentos que distam entre si muitas milhas e interagir com os elementos, comandando-os. Apresenta-o como alguém que tem acompanhado a humanidade desde os seus primórdios. Por seu lado, o narrador escolhido admite ser o menos ajustado para tal tarefa, por não poder provar a sua isenção face aos fatos que se propõe narrar. Mas, já na posse do romance, com alguma prosápia, confessa conhecer por experiência própria todas as inclinações dos homens. A sua primeira mentira está no enunciado dos seus propósitos: ter acerto no começar, direção no progredir e perfeição no concluir.

Pedro Almeida Vieira entrega a narração deste romance, sobre a vida desse grande evangelizador que foi o padre Gabriel Malagrida, o Santo do Maranhão, ao próprio Diabo, o Mafarrico, o Excomungado.

No entanto, o romance abre com um milagre do padre Malagrida, para o qual o narrador não consegue oferecer uma explicação crível. De seguida começa a difamar o santo vivo, insinuando que recorre a sábias palavras para enganar os incautos ou a truques para simular milagres, como o de obter água potável a partir de bolas de cera mergulhadas na água do mar.

Desde muito cedo que o jovem Malagrida demonstra a sua inclinação para uma vida devota, mordia os dedos até estes sangrarem, justificando que era uma forma de padecer em glória do tormento de Jesus Cristo na Cruz. O narrador comenta, com algum sarcasmo, que este comportamento piedoso, com a passagem dos anos, implicava um de entre dois destinos: o hospício ou a vida clerical. Está traçado o rumo que o livro segue.
O Excomungado vê-se na contingência de reconhecer a Malagrida, jovem padre da ordem dos Jesuítas, a coragem com que no Maranhão se embrenhou na selva para a sua missão evangelizadora. O que muito contribuiu para o desespero do vice-provincial da Companhia de Jesus que já tinha a sua lista de mártires canonizados bem repleta, preocupando-se em manter alguns vivos na Terra, mesmo que não fossem santos, para assegurar o trabalho de evangelização. Até então, para o narrador, Malagrida não passava de um fanático de evangelização. Um pregador de castigos, ameaçando a todos com o fogo do Inferno, tendo mesmo, para granjear maior clientela, recorrido à encenação de peças de teatro como aperitivo para as missas. Não podia estar mais enganado. O roupeta negra demonstraria ser um verdadeiro apóstolo de Cristo.

A obra do santo do Maranhão ia-se consolidando por terras do Brasil e a sua fama chega a Lisboa. Quando Malagrida se apresenta na capital do império para conseguir do rei autorização e cabedais para construir os seus mosteiros naquele mundo novo, o Excomungado decide enfrentá-lo. Desafia-o publicamente nas ruas de Lisboa. Pela boca de um pobre louco grita-lhe impropérios em latim o que permitiu a Malagrida reconhecer a autoria de tais palavras. Deste confronto sairá perdedor o diabo (mas não será o único caso em que tal acontece).

Sucedem-se os milagres de Malagrida, bem como o testemunho de uma vida devotada à mais pura das santidades. Esforça-se o narrador por desmentir e tudo denunciar. Sem sucesso, diga-se a bem da verdade.

No fim, não será o Excomungado a vencer o padre Malagrida. Essa derradeira vitória pertencerá ao Diávolo, Sebastião José e Melo, o todo-poderoso ministro do rei e futuro Marquês de Pombal. Instigado por seu irmão, Mendonça Furtado (que nomeou para governador do Maranhão), o ministro do Rei aprofundará o seu ódio aos Jesuítas. Defende o governador, referindo-se à Companhia de Jesus, que para a salvação temporal e espiritual daquele Estado, era preciso acabar com aquela República da Igreja em terras de um Rei. Foi um erro calamitoso. Se Lisboa tivesse acatado os piedosos ensinamentos de Malagrida, a cidade não teria sido submetida ao destruidor terramoto de 1755.

O Excomungado não deixa de se surpreender com a maldade que vai encontrando ao longo do romance, um mal perpetrado pelos homens, os da Igreja em particular, e desabafa: Tanta mentira e hipocrisia jamais castigada, é uma prova da bondade do Criador.

Pedro Almeida Vieira escreveu um romance histórico muito bem fundamentado. Recriando o tom e a maneira de pensar do século XVIII português, conferindo aos seus personagens uma linguagem com as cores da época sem entrar em arcaísmos artificiais de difícil leitura e sem se coibir do uso de alguma riqueza lexical, recorrendo a termos em voga na época. Também não cai na tentação de lançar sobre o século XVIII português juízos morais feitos à luz dos dias de hoje. O sentido de humor é o traço fundamental na fluidez do discurso narrativo. Este é um romance de invulgar fôlego que oferece ao leitor exaltantes momentos de prazenteira leitura. Apenas aviso aos mais incautos para se precaverem contra o tom herético e de apostasia que percorre toda a obra. Dito isto, recomendo, vivamente a sua leitura.

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