Salazar e o Poder. A Arte de Saber DurarSalazar e o Poder. A Arte de Saber Durar by Fernando Rosas

Este livro divide-se em três partes: o que pensava Salazar sobre a política (caindo o mito que Salazar vivia acima das questões políticas), como chegou ao poder e, finalmente, como conseguiu manter-se no poder durante tantos anos.

Para Salazar o primeiro nível político era o da governança, meramente técnico e gerido por técnicos, dispensando-se a participação dos cidadãos (que não tinham de ser ouvidos) ou dos seus representantes (o parlamento não se devia preocupar com este tipo de assuntos). A primeira parte do livro estuda como Salazar foi sedimentando a sua estratégia e como a mesma se foi confundindo com a da União Nacional, transformando-se no verdadeiro alicerce do Estado Novo. Implantou uma “ditadura de chefe de governo”, mas inaugurará o hábito de compensar os seus servidores mais chegados com substanciosos lugares no mundo dos negócios ou nas boas sinecuras do Estado.

Aos portugueses reserva-lhes um “viver habitualmente”, sem grandes aspirações materiais ou culturais, com muito respeitinho pelas autoridades e uma cega confiança em quem detém o poder. O “eles” é que sabem. As polícias, com os seus “safanões a tempo”, complementavam essa presença da autoridade junto dos cidadãos. Eram os órgãos de vigilância e de garantia do “sistema de ordem pública”.

Os aparelhos oficiais de inculcação ideológica, atuando na família, na escola, nos locais de trabalho e no lazer, garantiam a vigilância quotidiana e a persecução dos valores do “homem novo” salazarista. Um homem vinculado à missão de servir e à família como esteio da “nova ordem”.

Fazer concessões formais a opositores enquanto se organizava uma estratégia para os contornar e socialmente, satisfazer o quanto baste, para não provocar roturas subversivas. Modernizar o Estado apenas o suficiente para o conseguir manter operacional, num regime “limitado pela moral e pelo direito”. Era a fachada de brandura e civilizada do regime. No entanto, este não se coibia de atuar com mão forte sobre as ameaças mais diretas, sendo os comunistas os seus inimigos de eleição.
Acima do povo, educar as elites para a condução dos assuntos do Estado, no espírito do verdadeiro interesse nacional.

Fernando Rosas deixa-nos uma visão lúcida e desprendida de atavismos morais. Bem documentado, este livro, espelha o trabalho de quem dedicou uma vida académica a este período da história de Portugal e sempre procurou saber como Salazar sobrevivera durante tanto tempo. Não o teria conseguido por recurso a um exercício excessivamente autoritário ou repressivo, mas por uma sábia conduta de quem conhece a verdadeira natureza dos portugueses e, tirando partido disso, se lhes impôs como líder desejado e providencial. Uma obra indispensável ao conhecimento deste período da história de Portugal que, nos dias de hoje, muitos gostariam de ver repetida.

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