O Retrato de Dorian GrayO Retrato de Dorian Gray by Oscar Wilde

Há apenas dois processos de nos civilizarmos: um é a cultura, o outro é a corrupção.

Olhando um retrato seu, acabado de pintar, Dorian Gray, dotado de uma invulgar beleza, lamenta que, ao contrário daquela tela, sofra no corpo a degradação do tempo. Deseja então, com todas as suas forças e oferecendo o penhor da sua alma, que os papéis se invertam e lhe seja concedida a juventude eterna, suportando o seu retrato as agruras do tempo. Esse desejo será a corrupção que o condenará.

Aquele que não carrega em si o vestígio do pecado vê todas as ações serem-lhe permitidas. Lord Henry, um aristocrata hedonista e de acutilante sentido de humor, seduzido pela beleza de Dorian, atua como seu tutor. Deseja mais do que tudo atrair a atenção do jovem, fasciná-lo com a sua eloquência. Sabe então o que dizer, com uma elegância atrevida e um desarmante sentido de humor. O aluno corresponde e, sem sombra de pecado a escurecer-lhe o rosto, procurará superar o mestre. Sendo as suas ações inconsequentes para si, não hesitará em fazer o mal, mesmo aos que mais estima.

Em Lorde Henry o desprendimento pela dor alheia assume a postura de um esteta, de alguém que detesta a vulgaridade.

…que as tragédias reais da vida ocorrem de um modo tão pouco artístico que nos magoam pela sua crua violência, pela sua absoluta incoerência, pela sua absurda carência de estilo. Afetam-nos como nos afeta a vulgaridade.

Dorian acredita rever-se nas palavras do seu mentor, ele representa todos os pecados que nunca teve a coragem de cometer.

Todo o mal provém de sermos forçados a estar em harmonia com os outros. A nossa própria vida: eis a coisa importante. … A moralidade moderna consiste em adotar o padrão da época. Entendo que para o homem culto, adotar o padrão da época é uma forma da mais crassa imoralidade.

Que mais poderia desejar Dorian? Em Henry encontra o edifício teórico que o dispensa de toda a moralidade vigente. A coberto da sua beleza eterna, sabe que nunca será motivo de escândalo para os outros. Nenhum espelho lhe devolverá uma imagem desagradável.

Dorian transforma-se na vítima do seu criador. Oscar Wilde usa-o para traçar um poderoso e acutilante retrato da sociedade inglesa da qual é contemporâneo. Uma sociedade que se deixa seduzir pela aparência física e se deixa prender ao fascínio de um monstro, uma aberração física e moral. Existe na escrita de Oscar Wilde uma sabedoria que sobrevive à banalidade dos sentimentos, que não se submete às emoções nem ao cansaço dos sentidos. Liberta-se da vulgaridade e refugia-se na esfera da arte; um privilégio exclusivo das classes ociosas. Quase no fim do livro, não hesita em revelar o foco de toda a moralidade vigente, o mandamento supremo e civilizacional da sua época:

A gente nunca deve fazer uma coisa de que não possa falar depois do jantar.

E pouco mais se exige a um cavalheiro.

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