A SentinelaA Sentinela by Richard Zimler

Calmo é o riacho que
Tanto ama as margens como as terras
Aonde nunca chegará.

A Sentinela, de Richard Zimler, é um policial surpreendente, lúcido e corajoso. Mais do que abordar a realidade portuguesa atual, Zimler deixa-nos um retrato profundo do ser humano, das suas fragilidades e do seu lado indizível. O caminho iniciático para a idade adulta, esse precipitar em poços profundos, donde somos resgatados pela luz de se ser único na vida de alguém.

Alguns de nós tem uma parte sua por resolver, uma parte que se desdobra numa outra maneira de ser e que por vezes toma conta de nós. Um amigo inventado ou um lado de anjo que nos protege. Mas, em poucos se manifesta a coragem de caminhar até ao extremo da vida e dar o salto. Moura, interrogado pelo inspetor Monroe, dá esse salto: opta pela morte para impedir que o seu filho imaginário descubra que lhe matou a mãe.

Monroe é chamado a investigar o homicídio de um empresário rico, com ligações ao governo e ao submundo da política. Um empresário sob o qual recai a suspeita de praticar subornos, pois os seus projetos, invariavelmente, oscilam sobre um ponto de equilíbrio de duvidosa legalidade. Não estamos perante o relato de mais um típico polícia inadaptado retirado de um qualquer romance negro, do qual, rapidamente, nos habituamos aos seus tiques e idiossincrasias. Este personagem, criado por Zimler, não cessa de nos surpreender; no décimo primeiro capítulo, descobrimos mais um aspeto da sua personalidade. Monroe escreve Haikus, pequenos poemas, notas crípticas de vinte e uma sílabas exatas para o rapaz que já foi. Em tanto se desdobra este personagem!

… a minha confusão parecia uma coisa viva, perseguindo a própria cauda.

Zimler recorre a um inspetor estrangeiro, para nos dar uma imagem crua e desapaixonada dos meandros de investigação criminal em Portugal. Também o seu personagem recorre a um estrangeiro (Morel) para levar uma denúncia ao Ministério Público. Somos então um país de brandos costumes e justiça ainda mais lassa.
Este romance oferece-nos personagens de uma grande densidade psicológica, difíceis de apreender. Gente que persegue a sua própria capacidade de ser feliz, procurando refugiar-se em algo mais significativo e permanente, aspirando a escuridão trazida pelo vento.

A primeira vez que recebi uma mensagem na palma da mão tinha oito anos.

Logo no início, Monroe descobre algo sobre a personalidade do assassino que o perturba. Este amordaçou a vitima ao ponto de a asfixiar. Sentiu então, que ele, Monroe, partilhava com o assassino um medo muito especial: o da voz de outro homem. E do que seria capaz de nos mandar fazer. Não será o único aspeto desta investigação com o qual se identificará e que o remete para o passado, onde ele e o irmão mais novo, Ernie, foram postos à prova pelo seu pai. Um jogo no qual Monroe contava com a ajuda de Gabriel. Quando os dois irmãos vieram viver para Portugal, Gabriel acompanhou Monroe.

«Há crueldade nesta casa», pensei. «E a Srª Coutinho não se importa que eu veja isso. Talvez seja precisamente o que pretende que eu compreenda sem ter de mo dizer.»

Para se desvendar um crime é preciso reconstruir o passado da vítima. Para desvendarmos os mistérios da nossa vida também. Somos então, cada um à sua maneira, vítimas do nosso passado, muitos sem se aperceberem até que ponto deixaram de viver. A trama policial está muito bem elaborada. Somos, sistematicamente, empurrados de uma teoria para outra, de um suspeito para outro. Quando julgamos que tudo se esclarece, Zimler puxa-nos o tapete.

A minha mãe disse-me que, antes de casar, o meu pai se mostrara «maravilhoso». … a minha teoria é que ele nunca mudou; apenas fingiu maravilhosamente bem que era maravilhoso.

Zimler é um enamorado da natureza humana, os seus personagens são dotados de personalidade própria, desde os adultos às crianças. Quando descreve os seus dois filhos, temos a perfeita noção de estarmos perante uma criança e um adolescente. O seu mundo abre-se à nossa leitura com as suas cores próprias, como se Zimler, em cada momento, tivesse à mão as palavras certas. São os filhos de Monroe que farão a ponte entre o seu passado e o presente. Serão eles a explicar à mãe quem é a sentinela. Talvez porque as criança saibam como ninguém o que devem calar e reprimir naquilo que os afasta do mundo adulto. Quanto silêncio é preciso para proteger a família? Silêncio até que uma voz ganhe corpo, um corpo estranho que habita em nós e, tão forte, que ganha nome de anjo.

Ernie correu para lá. Eu não. Não queria entrar mais cedo do que o necessário naquilo que seria a minha vida a partir de então.

Anúncios