de-silencios

A poesia de Miguel de Castro (1925-2009) tem uma sonoridade e uma métrica como se tivesse sido escrita para ser escutada enquanto se lê. Frequentemente, os poemas deslizam a partir de uma imagem inicial, num processo quase narrativo, evoluindo ao longo da sua escrita, para nos brindar com um desfecho surpreendente.

Miguel de Castro assumia-se como o poeta do corpo, num magoado elegíaco erotismo ferido de “lembranças” (como referiu Fernando J.B. Martinho na Colóquio Letras) e era sempre com elegância e paixão que se referia ao corpo da mulher.

O poema a Mansarda (Mansarda 1953), abre com uma renúncia de si mesmo, numa afirmação de desprendimento do lado material e do conforto, sem prescindir de se ver rodeado de beleza e cor, nem do seu apurado sentido estético:

Tenho pensado em sair de casa.
Em ir morar para uma água furtada.

Quero ter um quarto fantástico
com estampas e borboletas nas paredes.
Um quarto com uma única janela,
uma cama, uma mesa larga
com livros, papeis e estatuetas falsas.

Quero fechar-me por dentro, sem que alguém
me venha perguntar o que estou fazendo.
Ficar com a luz acesa até de madrugada,
sem que batam à porta a dizer que são horas.

Quero entrar e sair quando me apeteça.
Entornar água no chão sem que ralhem comigo,
ou deitar-me em cima da cama com os sapatos calçados.

Estou farto de andar regulado.
Vou morar para uma água furtada
com vizinhas bonitas descendo as escadas.

O desfecho do poema muda o foco da narrativa, como se desde o seu início existisse a intenção dissimulada, de nos apontar uma direção, para nos surpreender com a imagem que sempre teve em mente. Parece dizer-nos, tomando-nos como confidentes: dêem-me uma água furtada para viver, um cantinho só meu, onde ninguém me incomode, onde ninguém bata à porta para perguntar as horas. Um “quase nada” preciso para morar. Ah! Mas dêem-me uma vista. Uma vista para uma imensa paisagem feita das curvas de um corpo de mulher.

O seu discurso poético é muito trabalhado. Por vezes, andava uma semana até encontrar a palavra que pretendia. Uma exigência extrema em relação à sua escrita, sem deixar de colocar um fino sentido de humor no que escrevia. Desse trabalho oficinal, nos dá conta neste poema:

Graças a deus e ao diabo
Que levo a cabo
A poesia
Pedreiro da minha casa
Faço o andaime com sonho e asa
Enquanto em mim é juventude e dia.

Podem os outros uivar à lua
Partirem-me os vidros das janelas
Que para lá das últimas estrelas
O meu poema continua!

Cartaz colado nas paredes, poema não datado incluído em De Silêncio e de sombras, 2013.

No poema Domingo ao sol, abre, bem ao seu estilo, com uma insuspeita afirmação:

O sol de Domingo é diferente do sol dos outros dias.
É mais quente, é mais alegre,
e beija a terra e todos, saudavelmente.

Termina com uma nota de humor, reclamando para o dia da sua morte apenas um sol de domingo; não deseja que seja domingo, para não estragar o fim-de-semana a ninguém, mas não prescinde do sol mais quente e mais alegre de todos os dias. Esse sol de domingo.

Quando morrer não quero que seja Domingo.
Não quero entristecer os meus amigos
e enlutar todos os outros Domingos.
Quero, somente, que seja um sol de Domingo
que leve o meu caixão a enterrar…

Domingo ao sol, Mansarda, 1953

A Sinfonia do Cu (1993), é uma humorada ode ao traseiro humano, à sua beleza na mulher, ao seu papel na sociedade, na sexualidade e na cultura popular. Recitava-a muitas vezes de cor (conhecia quase toda a sua poesia de cor), acabando por publicar um pequeno livro para ser distribuído entre amigos.

Quando já não conseguia ver o suficiente para escrever, ditava os poemas à sua mulher, voltando mais tarde a eles, para de cor, lhe ditar as alterações em que havia ficado a trabalhar.

Este livro póstumo, De Silêncio e de sombras, agora publicado pelo José Teófilo Duarte (amigo de longa data e seu editor), baseia-se numa recolha de poemas feita pela Alice, mulher do poeta. Teve quase para se chamar “Poemas imperfeitos”, consciente, como estava o José Teófilo, que se o Miguel de Castro fosse vivo, os teria revisto uma vez mais antes de serem publicados.

De Silêncio e de sombras é uma coletânea de poemas inéditos, desde 1963 até à data em que o poeta terá deixado de escrever. Poeta maior, Miguel de Castro tem neste livro uma homenagem e um pretexto para que se conheça melhor a sua obra.

À venda na livraria da Casa da Cultura de Setúbal e na Culsete, onde podem ser encomendados.

página oficial

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