A Filha das FloresA Filha das Flores by Vanessa da Mata

Vanessa da Mata estreia-se na literatura com este romance A Filha das Flores. A sua escrita tem um lado incomum, um registo que vai muito para além do linguarejar típico brasileiro: são palavras moradoras de construções de versos e de desvios tontos que dão direções a novos significados. Tem a sonoridade de imprevisíveis metáforas que invocam a arte de poetas sensíveis, e atesta a eficácia com que domina o lado oficinal da literatura. Estamos perante uma escrita trabalhada, séria, testemunho do empenho oficinal de quem não se importa de molhar o vestido pelo avesso no suor.

Uma estrada comprida e estreita de terra vermelha liga a cidade à proibida Vila Morena e lá moram Juliana, o Major e o Salada. Por momentos, pensamos que estamos numa mistura de dois universos: do feiticeiro de Oz e do sítio do Pica-Pau Amarelo. Alguma lentidão na narrativa alimenta esse equívoco. A Vila Morena, onde as medidas e a estética eram outras, aparece como o reflexo invertido da cidade onde Giza mora.

Talvez fosse um delírio, essas pessoas eram opostas a todas as outras com quem eu sempre convivi. As da minha cidade eram comedidas, rancorosas, tristes e pouco envolventes, sempre zelando pela honra e aparência. Nunca eram vistas xingando ou gargalhando, gritando ou falando alto, bebendo demais, se descontrolando. Vivendo e correndo pelas ruas, abraçadas umas às outras, ou experimentando de verdade o que a vida podia oferecer. Eram oprimidas pela conveniência e não se importavam em viver pouco por isso.

Na sua cidade as pessoas apenas se soltam em sentimentos intensificados e transbordados nos dias de lua cheia.

Giza é a menina desta história. Uma menina que, julgando-se feia, se refugia em cantos excluídos e pouca conversa, e, no entanto, é de uma incomparável beleza, cruel e esmagadora. Acompanhamo-la desde os seus 14 anos até à maioridade. Até as suas partes mais proibidas acordarem feito uma mariposa recém-nascida. Espreitaremos o seu passado e o segredo que todos na cidade escondem. Um mistério que lançará luz sobre coisas terríveis que aconteceram e ditaram a separação entre a pequena cidade, onde Giza vive, e a Vila Morena. Será então preciso um coração puro como o de Giza para desvendar esse segredo e reparar o mal que se confunde com o início dos tempos. Será ela quem liberta a cidade da idade da fofoca. Como saber se nos falam a verdade se dela nunca nos falaram?

Giza vive com as titias e, juntas, exploram um negócio de flores que lhes garante o sustento. Guarda cópia de todos os bilhetes amorosos que acompanham os ramos de flores. É, à sua maneira, um confessionário de amores prometidos e outros ainda mais proibidos. Toda uma romaria de pecados guardados na sua caixinha, palavras leitosas, passadas a manteiga, mais manteiga do que pão, cheias de rumores, lástimas e dramas. Soltá-las-à um dia, como fez com o estranho pássaro que tamanha dor e sofrimento emprestava ao seu piar. Afinal, aqueles bilhetes são a maior negação do moralismo em que a cidade aparenta viver.

A narrativa apresenta alguma lentidão, como se desconhecesse que o tempo se esvai quando tentamos prendê-lo. Um contar lento que só perto do desfecho final ganha ritmo e densidade, focando a atenção do leitor no mistério que se vai revelando. Não será pela narrativa que este livro nos surpreende. Outro reparo, que a idade seguramente corrigirá, é a ingénua visão de uma sociedade onde a produção da riqueza está nas mãos dos líderes e patrões. São pormenores que perdem importância face à qualidade da escrita de Vanessa da Mata, à sua capacidade literária para lidar com o espaço cénico, criar e recriar personagens, com os seus medos, crenças, formas particulares de falar, andar e de encarar a vida. Um universo policromático que chega até nós pela voz de Giza.

Todos os mistérios precisam de segredo e mentira. Afinal, quem o pode negar, se quando sentimos que vamos cair, a mentira se transforma nas nossas asas?

Padre, pense quem é que fica grávida, a mulher ou o homem? Quem fica por baixo da costela de quem?

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