O Botequim da LiberdadeO Botequim da Liberdade by Fernando Dacosta

Para que se justifique a nossa vida é preciso que alguém a invente em nós.
Natália Correia

Era uma mulher inigualável. Nos caprichos, nos excessos, nas iras, nas premonições, nos exibicionismos, na sedução, na coragem, na esperança. Cantava, dançava, declamava; improvisava, discursava, polemizava como poucos entre nós alguma vez o fizeram, o sonharam.

Natália Correia surge aqui num retrato de corpo inteiro, com seu lado inquieto a vincar estas páginas. O Botequim foi local de gente assídua e, provavelmente, com o Procópio(1) das últimas tertúlias de Lisboa. Local de comunhão com pessoas de espírito e ousadia porque se deve evitar a cultura desvivenciada, pois só quando se está muito na vida se pode transmiti-la aos outros.

Mulher de excessos exercidos com apurado sentido cénico, Natália contribui para o “anedotário” que surge à sua volta e que ela alimentou com poses extravagantes e comentários provocadores, (o que) a reduziu por vezes a caricaturas de si própria, impedindo a percepção da sua autenticidade.

Dotada de um forte sentido crítico, de um profundo desprezo pela mediocridade e pela opulência saloia dos recém chegados à política pela via do cavaquismo, Natália, sempre viperina, criará inimigos para a vida, deixando registos ímpares e tiradas geniais. Talvez a mais conhecida seja o poema Truca-Truca(2) dedicado ao deputado do CDS João Morgado e lido numa sessão plenária da Assembleia da República onde era deputada.

Dotada de um génio que transcendia o do comum dos mortais, Natália era em si um poço de contradição, capaz de gestos largos que tanto se estendiam em generosidade como reclamavam para si toda a atenção. Fascinado pela figura da poeta, Dacosta não hesita em ver nela um ser “tocado pelo sagrado” e, ao longo do livro, esforça-se por fazer justiça ao seu lado visionário e premonitório. A lucidez fria com que Natália Correia antecipou a crise que hoje vivemos, surge aqui narrada com um impressionante contorno lexical que a colocaria, nos dias de hoje, no centro do debate nacional sobre os malefícios da nossa adesão à União Europeia de que nunca foi partidária. A sua visão sobre o nosso papel em África também nos surpreende pela acuidade da sua antecipação: O grande desastre que aconteceu foi a maneira como ocorreu a descolonização. Ao expulsarem os portugueses, os africanos cometeram o mesmo erro, trágico erro, que os Portugueses quando expulsaram os judeus. O nosso País ainda não se recompôs disso. Angola e Moçambique vão, porém, emendar a mão, recebendo-os de novo, o que irá intensificar-se a partir do século XXI, quando a Comunidade Europeia entrar em derrapagem, até porque nessa altura já a paz será, efectiva naqueles jovens países. Por outro lado, serão eles a salvar-nos economicamente, sobretudo Angola, um dos territórios mais ricos do mundo. Tem tudo, até água.

Nesta saga de lucidez premonitória, até Salazar, que não foi contemporâneo do Botequim(3), surge, de viva voz, para reclamar a paternidade da frase: “Não podemos viver acima das nossas possibilidades.” O que suscita, desde logo, o espanto de Natália Correia pela sua contemporaneidade: “Mas isso é o que dizem os políticos de hoje.”

Conhecemos um desfilar de personagens da vida pública portuguesa e a forma como marcaram a vivência no Botequim, e ainda um ou outro fait divers envolvendo alguma personalidade do regime, sem que o livro se afaste do seu foco: uma Natália que nos foi dada como um D. Sebastião, capaz de nos guiar rumo ao Quinto Império. Isto, obviamente, se a tivéssemos entendido. Contudo, não será pelas suas capacidades premonitórias que a recordaremos. Sê-lo-á pela sua postura corajosa e desabrida, pelo vozeirão com que brandia os seus argumentos e pela sua escrita, em particular pela poesia (e, atrevo-me a dizer, não tanto pelos seus programas televisivos, cujo formato hoje não faria sentido). Hoje, a Portugal, mais do que a sua clarividência, faz falta a sua voz que mandava calar os medíocres sem olhar a cargos ou patentes, rejeitando o “politicamente correto” que lhe poderia garantir sinecuras ou outros privilégios do Estado. Essa é a Natália de corpo inteiro que nos faz falta.

Vai ser preciso passarem duas décadas, ou mais, sobre a minha morte para começarem a compreender o que escrevi.

(1) A ideia do Botequim como a última e fundamental tertúlia de Lisboa pode ser induzida no leitor: “Contra os canhões dos bem-pensantes na política, na inteligência, na comunicação, o Botequim marchava, marchava (sentado), ironia em riste, garboso, glorioso.”
(2) O poema doTruc-truca aqui.
(3) Salazar, acamado desde 1968, morre em 1970, ano da abertura do Botequim.
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