A Misteriosa Mulher da ÓperaA Misteriosa Mulher da Ópera by Afonso Cruz

– Já ouviu falar na lei da gravidade?
– Claro. Sempre cumpri essa lei.

Quantas mortes pode sofrer uma mulher? Uma mulher que regressa, ainda que num estranho jogo de espelhos ou de memória, é uma mulher que se torna múltipla de si. Este livro, um quase policial, abre com o Roda que mantém a mãe, já cadáver, deitada na cama. Não pretende incomodá-la porque ela detestava que a acordassem. Roda também se esqueceu do rosto da mulher por quem se apaixonou. Desesperadamente procura encontrá-la, já não consegue ser feliz, pois não reconhece a cara da felicidade mesmo que passe por ela na rua.

Um amigo leva-o ao doutor Bobrov que tem o consultório numa chapelaria e usa uma invulgar terapia à base de chapéus. Bobrov, por sua vez, recorre a um seu conhecido, um detetive nas horas vagas que recebe os seus clientes no posto de atendimento das finanças, onde é funcionário.

Estes dois personagens disparam a ação do livro. São dois capítulos fortes que prometem uma escrita que não se refugia em facilidades. A proposta parece-nos clara: cada capítulo, um personagem e um autor. Sete escritores convidados para escrever, cada um, dois capítulos.

O terceiro capítulo introduz-nos mais um personagem e aqui a força inicial parece vacilar. As imagens fortes, oscilando entre o mistério e o absurdo, parecem dar lugar a uma escrita baseada num maneirismo literário.

Deitou a cabeça nas mãos. Por trás dele, as flores formavam uma nuvem de silêncio cor-de-rosa e a piscina parecia ter suspendido a respiração. Até a luz parecia ouvi-lo.

Ao longo do livro a teia que une (ou afasta) os personagens vai evoluindo. Roda surge como um paciente antigo do Dr. Bobrov, tratado por este a pedido da mãe. O seu estado evolui do esquecimento do rosto da mulher por quem se apaixonou, para uma dormência psicótica que lança, no detetive privado, sérias dúvidas sobre os tratamentos de Bobrov e sobre as suas reais intenções. De um esquecimento pontual, Roda passa a uma amnésia compulsiva, como se existisse a intenção de o impedir de contar o que sabe. Nesse seu estado psicótico, Roda acaba por se dar como culpado pela morte de Mariana, lançando ainda mais receios entre os que gostariam de ver tudo esquecido. Afinal a morte de Mariana era um assunto já arquivado pela polícia. Como um novelo que se desfaz, as mortes sucedem-se, repescando sempre algo à anterior. Ninette, o rosto esquecido da noite da ópera do S. Carlos, surge, num equívoco, como a segunda morte de Mariana. Desta vez, o barco é um cacilheiro a caminho da Bienal de Veneza.

Bobrov defendia que uma pessoa pensava de maneira diferente consoante o chapéu que punha na cabeça, também este livro sofre as inflexões naturais por ter na sua génese um grupo tão eclético de escritores. Cada autor procurou vincar no enredo o papel do seu personagem, como se tivesse a responsabilidade de impedir que este fosse remetido para segundo plano ou para um elemento secundário da ação.

Imagine que eu era uma onda. Acha que me sentiria realizado esperando uma oportunidade para ondular? Uma onda só é onda quando ondeia, ondula, onduleja, ou seja lá o que for, raios partam as palavras!

No nono capítulo (recordo que ao todo são catorze), dedicado ao detetive privado, a história volta a ganhar densidade, com o mistério a ser suportado pelas motivações dos personagens e não pelo ritmo da ação. O último capítulo encerra este livro como um romance. Não estamos perante um crime ou crimes desvendados pela ação de um detetive. O que ficamos a conhecer, não se deve à sua investigação, mas às revelações do personagem chamado a encerrar o livro. Aqui se desfaz o jogo de espelhos em que as mortes parecem replicar-se, como um destino que corre à nossa frente e do qual nos pretendemos libertar. A misteriosa mulher da Ópera, mais do que um rosto esquecido por Roda, é uma má tradução de uma história que alguém já não está disposto a viver: a segunda oportunidade que, acontecendo, é repudiada. Tudo, afinal, se resume a viver uma vida boa.

Gosto de livros, apesar de serem como alguns portugueses: ostentam um título antes do nome.

 

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