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Um livro de prosas por Licínia Quitério. Uma coletânea de contos sobre gente comum dos nossos dias, gente de funerais breves e sonhos ainda mais leves. Relato de locais ou de pequenas atitudes, como as das crianças que se sentam no chão, que se tocam apenas para lutar e um dia irão descobrir que o abraço magoa. A luta não.

Quando abandona o narrador omnisciente e abraça a narrativa mais curta, algumas delas já nossas conhecidas do facebook, a escrita de Licínia Quitério assume a sua máxima expressão literária. É um narrador que acompanha com o olhar, que lê, intui e sobre o que vê constrói uma história. Um breve registo da vida de alguém. Ficcionado, pois quem assim fala não está na posse da verdade. Este narrador-observador é desdobrado, por vezes, numa personagem que assiste e, fascinada, preenche o seu relato de autenticidade. Descreve o que vai observando, sem se prender na ação, o seu olhar desliza, não participa, é ele o foco da narrativa, aquele que lhe confere o conflito, o vórtice rodopiante da própria ação.

Há um muro. E o muro está ali para contar que houve um tempo antes da casa. E antes dele nasceram as pedras.

As narrativas mais curtas, são um suspiro, um limite fotográfico impondo um enquadramento onde tudo o que acontece está contido num instante e delimitado num espaço. Uma foto comentada para alguém que nos escuta e, para o efeito, se recorre a palavras próprias da poesia.

Então torna-se fácil desprender nestas páginas toda a falta de sentido das nossas vidas. Vidas adultas e cheias de fragilidades. É um caminhar, pois todos os dias se enchem de histórias para contar. Guardamo-las a todas no nosso disco rígido.

Os grandes não advinham os segredos dos meninos marotos que acham que o chão é para sentar.

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