A Vida no CéuA Vida no Céu by José Eduardo Agualusa

“DEPOIS QUE O MUNDO ACABOU FOMOS PARA O CÉU.” Assim começa este romance. Uma frase em maiúsculas lançando a ambiguidade: céu ou Céu?

Quando a água cobre todo o planeta e a temperatura sobe, o homem é expulso da terra. Para onde vai o homem quando perde o chão? Vai para o céu. Aí, constrói cidades e aldeias que flutuam e são nomeadas segundo os seus locais de origem. Os mais ricos constroem dirigíveis, são as grandes cidades flutuantes, Paris, Washington, etc… Os mais pobres vivem em balões unidos por cordas, formando aldeias. Carlos Benjamim Moco nasceu numa dessas aldeias. Pertence à geração que nasceu no céu. A sua aldeia chama-se Luanda.
O mundo tem agora de uma toponímia em movimento, porque tudo no céu se move. E o que sonham os homens do céu? Buscam um pouco de chão, sonham descender à terra perdida.

Esta “revolta do planeta” que expulsa o homem da terra tem, obviamente, um lado de parábola ecológica. Mas, não se trata da apologia do regresso ao homem primitivo, aquele que vive em harmonia com a natureza. Nestas cidades flutuantes, e até nas balsas salva-vidas (que são pequenos balões), a tecnologia é de topo: internet, radar e meios sofisticados de navegação. O petróleo continua a ser usado como um dos meios de propulsão.
Os grandes dirigíveis são de acesso restrito. Os poucos, dos mais pobres, que conseguem aí um emprego, são explorados pelos mais ricos. Uma sociedade baseada na descriminação e na desigualdade. O céu não redime o homem. Talvez seja essa a grande parábola do livro, os locais não redimem. Cabe à humanidade encontrar o seu caminho de harmonia consigo própria e com a natureza.

Numa noite de tempestade, o pai de Carlos desaparece. Confiando que o pai se encontra vivo, parte à sua procura. Ao longo da viagem vai juntando companheiros e somando mistérios. São um bando de nefelibatas em busca de um pouco de chão.
No céu, mesmo nos grandes dirigíveis, as pessoas vivem entre paredes, sem as grandes distâncias que lhes permitem correr. Vivem aprisionadas no seu pequeno mundo. Carlos tem uma balsa em condições de navegar, é livre de partir quando quiser, mais livre dos que habitam os grandes dirigíveis.

Os mais novos, a geração que nasceu no céu, estranham essa nostalgia dos velhos pelos cheiros. O cheiro da relva molhada. Os cheiros das coisas que não existem mais. É a nostalgia de quem partiu, sabendo que o mundo que abandonou deixou de existir.

Está alguma coisa lá em baixo, e eu acho que se parece com a minha infância.

A escrita que Agualusa imprimiu a este romance, para jovens e outros sonhadores, tem um toque aveludado. Mesmo nos momentos mais intensos, nunca se afasta desse desenho.

O indonésio derrubou-os a todos, com uma série de golpes harmoniosos. Citando Alain: «Era como se estivesse a ler as notas de uma partitura.»

Escritor do mundo, Agualusa, lança neste romance, um olhar de quem não vê a europa como o epicentro do mundo e sua referência cultural única. Na história dos nefelibatas, recupera a ideia de que os índios, numa américa pré-colombiana, foram os primeiros a voar em balões, o padre Bartolomeu Gusmão é-nos apresentado como brasileiro e a única cópia, sobrevivente, de O Segredo dos Nefelibatas, encontra-se na biblioteca de Luanda. A própria Luanda flutuante torna-se numa aldeia biblioteca, preservando a memória escrita do homem. Estamos na presença da multiculturalidade de quem vive entre três países (Angola, Brasil e Portugal) e o resto do mundo.
Neste romance, antes de cada capítulo, temos uma entrada do dicionário dos nefelibatas. São citações feitas num tom poético, e não estranha que a epifania anteceda a liberdade que abre o último capítulo.

Afinal, o céu é mais bonito havendo mar e havendo terra.

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