image

Ao canto da sala descansava uma bengala gasta, porventura cansada de tanto andar sem o amparo de uma bengala.

Este livro é uma coletânea de contos decalcados a partir do nosso quotidiano. O homem em conflito com a sua consciência, marcado pela circunstância social e pelo egoísmo. O livro apresenta uma estrutura temática, não óbvia, abrindo no primeiro conto com o homem enquanto indivíduo, focado em si mesmo, fechando com um conto sobre o homem político e o seu papel na sociedade. Na voz de um narrador irrequieto, tricotando entre a realidade que o envolve e um zapping de pensamentos, trasvazam-se os limites de uma consciência em permanente conflito.

O insecto fossilizado no pára-brisas deixou um bilhete fácil e sacrificou-se na entrega da mensagem.

O narrador-personagem é por vezes um objeto, como o manual da passadeira de fitness, agredindo o personagem-homem, orgânico, que procura restabelecer à custa da tecnologia, o equilíbrio perdido. Espreitando, na disponibilidade do outro para ouvir, uma oportunidade para “ajustar contas”, para sair “por cima”, assim lhe exige uma sociedade disfuncional em permanente competição.

«…nem sequer necessito de um espelho em casa, e sabes porquê? Porque te tenho a ti e se eu quiser ver-me gorda, feia e nojenta, basta olhar para ti. Doeu?»

É nesse domínio, o do pensamento e da reflexão, que se centra a escrita de John Wolf, onde praticamente estão ausentes as descrições físicas, quer dos personagens quer dos locais. Não é uma escrita que procure entreter. É uma escrita dura, reduzida ao essencial do processo narrativo, que não entra em confidências com o leitor. As consciências estão poluídas pela cultura, pela moda e pela ideologia. A quem se dirige este narrador? Limita-se a fazer perguntas para as quais sabe não obter resposta, por vezes, num tom acusatório.

Estamos no domínio das coisas mais importantes, as que se sobrepõem à ação, desfigurando-a, refugiando-se na catarse, nesse lado intangível das nossas vidas. Por vezes escutamos um narrador tão disperso, que se confunde com a audição de um posto de rádio, sintonizado ao acaso. Um fino e rápido esgrimir de razões. Um colecionador de nuances.

As imagens que cria vão beber diretamente à modernidade. Aplausos em pré-pagamento para o artista. Ou, referindo-se às folhas de um caderno coladas entre si: agarradas como sindicalistas em marcha de protesto.

Um fino registo de humor negro adapta-se ao espírito de cada conto. Com se pode ver neste excerto retirado do conto Dentada, passado num consultório de dentista:

Vou vomitar. A assistente traz-me um saco de plástico reciclado e despejo vários parágrafos nojentos sobre as condições em que nos encontramos. Onde tratam da humanidade? Por que razão uma clínica dentária opera numa cave?

Esse mastigar as certezas agrupadas ao longo dos anos transfiguram a realidade ou a sua perceção. Como neste conto, Dentada, em que uma consulta no dentista se transforma num interrogatório sujeito a sevícias:

Não consigo ver com clareza a cara do inquisidor-mor – o projector de luz ofusca-me, mas é ele de certeza um tirador-de-dentes sedento por me arrancar as unhas que querem arranhar-lhe a cara.

No primeiro capítulo temos uma passadeira de fitness que se rebela contra o utilizador, agredindo-o verbalmente; noutro conto, as personagens respondem todas pelo nome de Sofia. Não é o lado anedótico que nos prende, mas sim, as camadas sucessivas de leitura apenas abertas a um leitor exigente. As diversas Sofias, funcionam como uma parábola social, muito para além da clássica rábula Olívia patroa e a Olívia empregada.

John Wolf deixa-nos aqui um pungente testemunho de quem não se conforma. Numa lucidez excessivamente verbalizada, brinda-nos com um ato de rebelião, um acordar de consciências mas só para não descrentes.

Que nunca tinham estado na presença de um homem que se revisita sem despudor. Que nunca poderiam imaginar uma língua cumprida à risca, instruída por problemas de consciência.

Anúncios