As primeiras coisasAs primeiras coisas by Bruno Vieira Amaral

As Primeiras Coisas é o primeiro romance de Bruno Vieira Amaral. Um romance que pode induzir a ideia de que os seus capítulos valem por si próprios, como unidades autónomas, passíveis de uma leitura de ordem aleatória, como se de um livro de contos se tratasse. E, no entanto, não é um livro de contos. Que estranho objeto de leitura será este?

Desde logo, um que nos prende pela sua escrita. Bruno regressa ao Bairro Amélia, onde cresceu e donde saiu para conquistar um lugar na grande cidade. Regressa sem emprego e desmoralizado. Dá consigo a rever o bairro tal como o conheceu, memórias de vidas dispersas, de pessoas reais, cada uma com a sua história por contar. Vidas-histórias, capítulos do livro maior que o Bairro Amélia foi. O início segue o formato de um romance clássico, até que Bruno recebe de Vergílio a matéria prima sobre a qual trabalhará.

Aos nossos olhos desfila este bairro, desdobrado nas suas personagens, com a sua linguagem própria, da beata ao marialva, do especialista em biscates ao encenador amador, do jogador de futebol que foi uma grande promessa a tantos outros personagens e as suas respetivas histórias.

A Bruno junta-se Vergílio, fotógrafo que traz consigo uma coleção de retratos. Rostos capturados pela sua máquina e agora registados em escrita pela mão de Bruno. São fantasmas, presos à promessa de uma vida de esplendor fora do bairro Amélia. São imagens do passado, contornos marcados a negro como as vítimas de uma explosão nuclear, trazendo à memória as sombras projetadas nas paredes de Hiroxima, antes dos corpos terem sido consumidos pela onda de calor, apagados da face da terra pelo clarão final da morte.

As primeiras coisas são essa memória. A força da escrita de Bruno Vieira Amaral confere a estas vidas uma autenticidade que cresce para além destas páginas. Vivem de novo e de uma forma muito especial. Como aquele diálogo com Fernando T, dez anos após a sua morte: Ali. No dia 26 de Dezembro de 1999. Foi ali que me mataram. Uma escrita que vai ao encontro desse mundo, da sua maneira de falar, recriando os seus tiques de linguagem, sem se repetir. Nenhuma história ou personagem é cópia de outro capítulo. O foco centra-se no personagem, tomando o seu mundo como referência, incorporando na escrita a sua maneira de falar e o testemunho da sua sabedoria, sem moralizar ou ceder a sentimentalismos. De quando em vez, um personagem surge para perturbar, sendo reduzido a um apontamento de poucas linhas; outro pretende interferir no trabalho de escrita: De certeza que falta aí o Olímpio. São Vidas que se desdobram em direções inconciliáveis e, por isso, as notas de rodapé. Extensas, libertando-se do seu papel de apontamento breve e transformando-se em narrativas. Divergindo numa história igualmente possível ou inventada pelo próprio, transfigurando-se na versão em que gostaria de ser recordado.

O autor, mantém uma equidistância crítica em relação aos seus personagens, sem julgamento, mas capaz de apontamentos críticos de alguma severidade, como este em que nos alerta para os contornos eróticos que os homens santos inspiram nas beatas.

Neste romance, somos convidados a reviver um país suburbano, pobre e bairrista, que o dinheiro, injetado pela União Europeia, parecia ter resgatado de forma definitiva. Um país onde frases deste tipo fazem todo o sentido: o doutor Santos era médico, de especialidade indeterminada, ou ainda, Diógenes nasceu completo de dedos. Hoje, não é só o Bruno desempregado que regressa ao Bairro Amélia e à sua realidade degradada, é todo um país que é violentamente atirado para a sua periferia europeia. Um país, onde uma minoria de privilegiados deita um olhar crítico e estende o dedo acusatório: falta aí o Olímpio.

Podemos regressar ao Bairro Amélia, mas nunca regressaremos à inocência desses tempos, porque já as primeiras coisas são passadas.

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