Rio HomemRio Homem by André Gago

Rogélio Pardo é um fugitivo da guerra de Espanha entregue ao desígnio de se manter vivo. Sobrevivente da frente, caminha em permanente sufoco, como quem continua a percorrer as trincheiras da guerra. Recusa morrer em fuga, num momento tão incompleto. Continuará fugitivo mesmo depois de encontrar refúgio na aldeia comunitária de Vilarinho das Furnas.

Rogélio crescera seguro do mundo que o rodeava sem cuidar do que sustentava esse mundo, vivia na indolência própria da abundância, que tende a ocultar a esforçada origem das coisas. Na universidade torna-se militante do nacionalismo independentista galego, acabando por combater ao lado das forças que defendem a República, o lado perdedor da guerra civil. Inicia assim a fuga, acompanhado dos seus camaradas de quem acaba por se separar. Um fugitivo, sem a noção clara de um destino, acaba por se esvaziar de toda a sua identidade. A sua fuga convertera-se num processo pessoal, num estranho e solitário exílio.

É em Vilarinho que encontra uma fraternidade que imaginara natural entre os homens, um espaço singular, um mundo alheio às ideologias vivendo de uma partilha comunitária de deveres e proveitos, baseada em leis fundadas na emanação estrita das necessidades de todos, sem derivas de qualquer espécie. Tão natural como se fosse a própria terra, com os seus ciclos, a gerá-lo. Um raríssimo exemplo da materialização do comunismo.

André Gago apresenta-nos uma escrita rica em metáforas, não cirurgizando as palavras, sem contudo se entregar ao colorido sentimental da linguagem. O romance encontra-se bem documentado, desde as vicissitudes da guerra, à participação dos diversos países europeus, passando pelo lado etnológico bastante rico de Vilarinho, pelo contrabando, os serviços florestais e a gestão dos baldios, o Volfrâmio, a caça aos fugitivos da guerra de Espanha, o funambulismo da neutralidade de Salazar na segunda guerra, tudo lhe merece um olhar atento e demorado. Talvez porque o autor acredita que a tangibilidade das referências retira plausibilidade às narrativas. Ou, porque uma história tem de se deixar correr na paisagem. É sempre bom recordar, entre outras coisas, que a Rússia entrou na segunda guerra, não para combater a Alemanha, mas para invadir a Polónia. Ou que o Papa Pio XII e Churchil aplaudiram Mussolini quando este invadiu a Etiópia. São trinta anos da vida de Rogélio, trinta anos de convulsão na europa e no mundo. O olhar de experimentalismo que a Europa lançou sobre a guerra civil de Espanha, com lições mal aprendidas, cobrou o seu quinhão em vidas humanas.

André Gago lançou neste romance um olhar muito pouco urbano. A sua escrita não é para citadinos apressados, mas para quem se perde no tempo, incapaz de despegar o fundo dos olhos da novidade daquele mundo. Rogélio funde-se com Vilarinho num espaço circunscrito aos seus próprios limites vitais. Percebe o ciclo que não é imposto pela natureza, mas pela mão humana do progresso, que desvia o curso dos rios e inunda mundos que ali pertenceram desde sempre. Percebe-o melhor do que qualquer etnólogo vindo de Lisboa. Então chama a si o espólio de antigo combatente e caminha em direção ao coração da barragem, caminha até que o rio o reclama, acolhendo-o suavemente no seu seio.

«Não te sabia temente a Deus.»
«Não temo, bem pelo contrário: como vês, acolho-me sob sua protecção.»
«O Diabo deu connosco! Nós bem estávamos!»

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