PassagensPassagens by Teolinda Gersão

Era um ambiente algo impessoal, apesar de terem feito esforços para lhe dar um aspecto solene, quase festivo: havia em volta uma profusão de flores, como nessas alturas em que se fazem gastos insensatos, porque são ocasiões irrepetíveis, que justificam todos os excessos.

Este é um livro de personagens, como se nos encontrássemos numa peça de teatro onde se celebra a vida, com as suas alegrias, desencontros, culpas e desabafos. Cabe aos personagens o papel do narrador, de passar o seu testemunho ao seguinte, como o fizeram sucessivas gerações. Estamos num velório, no velório de Ana. Uma ocasião irrepetível.

Vieram todos para que Ana os escutasse uma última vez. A família, a empregada do lar, o ex-marido da filha, a diretora do lar e os que habitam, apenas, as nossas memórias. Aqueles cuja imagem vamos compondo dia a dia. Uns, porque tinha de ser, outros por obrigação e ela, Ana, ao início, sem nada perceber e, contudo, atenta, escutando.

Desfilam conversas cruzadas e pensamentos, uns fazendo sentido, outros nem tanto. Ela, que fez tudo o que pôde por aqueles que amou, anulando-se, não querendo ser um peso. No lar, esse local de crianças velhas, anestesiadas, procurou libertá-los, poupá-los à consciência do abandono. Inventava outras vidas, para onde fugia. Não queria ser para eles a imagem, no espelho no tempo, da sua própria velhice. Que vissem nela, no seu declínio, a imagem da sua própria morte. Eram demasiado jovens para isso e ela queria-lhes tanto!

Neste romance escutamos diversas vozes, as pessoas soltam-se através delas, reinventando-se, desculpando-se. É pela palavra que somos justificados. Teolinda Gersão, com uma mestria inigualável, conduz-nos nesta celebração da vida, do destino, das probabilidades, do universo que um dia se tornou transparente, da nossa irredutível finitude. Tudo o que sabemos, tudo o que ainda iremos descobrir em nada alterará esse desígnio.

No fim ou perto do fim, a peça (…) quase a terminar, Ana, num momento de paz, desabafa: Fechámos o livro do tempo. Acertei o que queria emendar nele.

Nota: este romance venceu o Prémio Literário Fernando Namora, 2015.

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