Do Branco ao NegroDo Branco ao Negro by Ana Luísa Amaral

Sobre a colcha branca, o seu corpo não voava, como podia acontecer em literatura: estava só estendido, em dor. E mesmo assim, em dor, dava-se à carícia.
Branco, o conto de Ana Luísa Amaral.

Este belíssimo e pungente conto abre este livro com a cor branca. Todas as demais cores são luz distorcida, sonegada à sua pureza original. O amor vive-se em entrega e não conhece fronteiras entre seres. Uma ilustração de Rita Roquette de Vasconcellos remata com um apontamento gráfico de grande sensibilidades toda a beleza deste conto, captando a tranquilidade de um momento de despedida. A certeza que a vida se aceita como um dom e a saudade dura o tempo exato da memória que se desvanece. O fim também encerra a cor branca.

Escutai o silêncio da casa, assim começa o conto de Lídia Jorge dedicado à cor verde-água. O tempo do esplendor fala-nos do tempo das casas desmesuradas para três pessoas, das criadas de dentro e das criadas de fora, dos ferros aquecidos com brasas, dos jardins privados, do pai ausente, preso às suas coisas de trabalho. E um dia, tudo isso termina, como um deslize verde limo, verde escuro, verde mudo. Como o despertar depois de um longo tempo no reino da água.

Escutai e não escutem, sem o tom imperativo deste último. Escutai, remete para o apelo, para o domínio dos afetos, para esse reino distante que foi a nossa infância e por onde todos passamos. E vem-nos à memória aquele feito que, se tivesse resultado, tudo teria alterado e, seguramente, salvo o mundo; o nosso mundo no seu esplendor. Algo a que só a nossa ingenuidade infantil confere um papel salvador, numa linguagem própria e inacessível aos olhos dos adultos.

Escutai o silêncio da casa. Fechai os vossos olhos diante do esplendor, pois agora o tempo passou.

Azul Claro, é a cor mote que coube a Maria Teresa Horta nesta coletânea Do Branco ao Negro.

Quando se deita pela primeira vez com um homem, Raquel usa uma liga azul-clara, cor de um céu esvaído…

Compõe o corpo, sente prazer nisso, enquanto, centrada em si própria, tudo imagina. É ela a teia que atrapa. O seu corpo é um caminho, o trajeto mais curto, por onde eles descerão os lábios, a quererem ir matar a sede no poço sombrio do seu corpo candente e febril… Assume então a condição da arte do voo e a teia é a sua constelação.

Comia aranhas quando era menina, macilenta e dúctil, olhos azul do céu sumido no extravio da salvação, criança de suspeição e agrura sem alimentos de quase nada. Raquel, esculpindo a si mesma, enquanto personagem. Sabe que a loucura das mulheres sempre assustou os homens, não lhe é estranha a velocidade da aranha. O percurso mais curto de regresso a casa, a teia que nunca foi liberdade.

“És de azul-céu”, murmuram-lhes eles em surdina, enquanto a colhem, a algemam à cabeceira da cama, lhe amarram os pulsos atrás das costas, expondo a sua nudez de concha nacarada, ao mesmo tempo que lhe vão rumorejando com rouquidão de castigo: “deixa que eu te apanhe minha flor de nardo e murta, narciso ou camélia, minha gardénia, tu, de mosto e malte na minha boca, usas a secura em oposição ao fulgor que geras, sem te entregar a nenhum que te queira, a nenhum que te apague e use, vagem, grão de luzeiro e semente ou bago de sol.”

Neste belo conto, de uma imensa sensibilidade poética, Maria Teresa Horta, traz-nos o circular e labiríntico esboroar das nossas vidas, breves, mínimas… Deixa-nos aturdidos com as nauseabundas águas do tempo, que tudo arrecadam, tudo arrastam na sua devastadora passagem.
E só então a sua mão vacila.

Do branco ao negro, uma coletânea de doze contos coordenada pela jornalista São José Almeida e ilustrada por Rita Roquette de Vasconcellos, onde cada história tem por base uma cor. Os direitos de autor revertem na íntegra para a Associação Alzheimer Portugal.

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