A Montanha e o TitanicA Montanha e o Titanic by Luísa Franco

A resposta veio no mesmo dia em que soube o resultado do pedido da reforma. De manhã, a reforma. À tarde, a Besta, majestosa, anunciou que iria comer o meu corpo.

Dizem os manuais de escrita criativa que a melhor forma de prender o leitor é começar com uma morte. Neste romance, Luísa Franco serve-nos, logo na frase de abertura, a sua própria morte: Paradoxalmente, se o meu intento for bem sucedido, toda a minha vida se resumirá a uma noite. A noite do dia em que soube que ia morrer.

A autora partilha connosco um conjunto de decisões, fora feliz em vida precisava de o ser na morte. Toma o propósito de escrever a história verídica da sua Avó Álvara que, juntamente com o marido, perecera a bordo do Titanic. Luísa Franco vai buscar as suas forças à Montanha do Pico e à presença tutelar e inspiradora da Avó Álvara. Habituada a uma vida solitária, sem marido, filhos ou namorados, Luísa encontra nos personagens dos romances que lê, toda a companhia de que precisava. Hoje não será diferente. A Avó Álvara, transformada em personagem do seu romance, também estará presente, inspirando-a, zelando juntamente com a Montanha, para que atinja o seu propósito, o de concluir este romance. Não sendo uma pessoa crente, Luísa Franco acredita na força da Montanha, tal como acredita na força do Espírito Santo. A Montanha ajudou-a a nivelar a sua relação com deus. Massa pétrea colossal, nela projectei o meu sentimento de transcendência.

Ao destino trágico da Avó Álvara, na sua viagem a caminho da América a bordo do Titanic, junta-se a sua própria luta contra a Besta. A Avó Álvara a acompanhar-me na morte e a unir o seu ao meu destino, juntas as duas para a eternidade.

A Avó Álvara era bonita, garbosa, Olhares oblíquos fixavam-lhe o corpo quando atravessava a nave da igreja… outros, porventura cobiçosos, seguiam-lhe o corpo erecto quando regressava ao banco corrido, o olhar contrito, o Senhor depositado na língua, humedecido.

Tendo perdido a mulher, o pai decide partir, acompanhado da filha, para a América. Na escala do Funchal, Álvara conhece João Franco. Por ele se apaixonará perdidamente, com ele fugirá, acabando mais tarde por partir os dois para América a bordo do Titanic. Para trás fica o filho de ambos, ainda bebé. O pai de Luísa Franco.

Ao longo destas páginas, Luísa testemunha a sua forte admiração pela Avó Álvara, que ousara quebrar as grilhetas da pobreza e do isolamento.

Nas instalações da terceira classe, isoladas com grades de ferro, fechadas a cadeado, os casais são separados do grupo dos solteiros, pois é sabido que os pobres são promíscuos, lascivos, inclinados para paixões animalescas. Álvara deixa-se impressionar pelo luxo das instalações que lhes estão destinadas e que a sua sensibilidade deseducada nunca conseguiria imaginar. As madeiras a forrar as paredes, o gavetão por baixo do beliche, as torneiras nas casas de banhos, tudo perfeito. Apesar da desproporção entre as acomodações da terceira classe e o luxo sofisticadíssimo da primeira classe, para a Avó Álvara, originária da Calheta, o Titanic e a sua ostentação, seriam uma espécie de grandiosa antecâmara da América; por sua vez antecâmara do paraíso.

A autora, no tempo que dedica ao presente, a partilhar connosco o progresso da sua escrita e os sucessos que a Besta vai alcançando – devorando o seu corpo cada vez mais frágil, cada vez menos obediente -, dá-nos uma imagem de como construiu os seus personagens e foi congeminando a história a bordo do Titanic. É raro termos um testemunho tão bem conseguido sobre um processo de escrita em curso, tão cheio de interesse e de emoção. Tal como a autora, não duvidamos que chegará ao fim do seu livro. Também acreditamos no espírito da Montanha e na presença da Avó Álvara, embora saibamos que coube a Miguel Real a tarefa de fixar o texto final, aquele que agora nos é dado a ler.

A Avó Álvara e o Avô Franco acompanhando-me, protegendo-me. Não me deixarão morrer sem que finde o romance. A casa da Madalena, com as suas inúteis cinco divisões, é, para mim, o que o Titanic foi para ambos. Uma espécie de Sarcófago feliz. A diferença reside apenas no grau de consciência. Eles não sabiam que iam morrer.

Luísa Franco deixa-nos um romance de uma força invulgar, muito bem escrito, pleno de realismo, sem lirismos rebuscados, tiradas trágicas ou julgamentos morais. Um testemunho da sua própria força, da Avó Álvara e do espírito da Montanha. Luísa Franco soube descrever, com arrepiante realismo e mestria, os últimos momentos a bordo do Titanic. Já bastante debilitada pela doença e pela medicação – sem forças para escrever, ditará as linhas finais do seu romance -, consegue escrever com uma inusitada lucidez e de forma soberba, a beleza harmónica do Titanic a ser destruído.

Para sempre, ficará este romance, a sua memória e a da Avó Álvara , e a eterna Montanha, à qual Luísa Franco se juntou em minúscula partícula espiritual, a 15 de Abril de 2012, no dia em que se cumpriam cem anos da tragédia do Titanic.

Em boa hora a Parsifal e Miguel Real uniram esforços para trazerem até nós este romance.

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