Nova Teoria do SebastianismoNova Teoria do Sebastianismo by Miguel Real

…cada português sente-se, em si, incompleto, irrealizado, guardando memória de um inacabamento essencial.

Neste ensaio Miguel Real revisita o mito do sebastianismo desde a sua génese até aos dias de hoje. O que disseram os mais diversos pensadores, filósofos e o sentir do português comum, sustentam o sebastianismo como uma crença mítica. Um discurso alucinatório, nem real, nem ficcional, que, nos dias de hoje, num Portugal humilhado e obrigado uma vez mais a ceder a sua soberania, assume o carácter de refúgio para quem não vê nas suas elites o motor que guinde o país ao nível dos seus parceiros europeus. Nesse aspeto o sebastianismo corresponde a um fortíssimo anseio de justiça e riqueza.

Sentiu (o português) que algo que pertencia a Portugal inteiro como país e nação era usufruído apenas pelas elites ligadas ao Estado e sentiu-se incompleto e irrealizado.

Na explicação do sebastianismo como mito, Miguel Real não hesita em constatar que: Povos socialmente realizados, economicamente satisfeitos e mentalmente felizes não criam narrativas míticas compensatórias e consolatórias, nem projectam no futuro sonhos de realização que o presente, ainda que limitadamente, já efectiva.

Nas trovas messiânicas de Bandarra, sapateiro de Trancoso, Portugal é apresentado como a nação do Encoberto, identificado como um futuro rei português. Estamos perante uma nação possuidora de um destino messiânico e criadora do Quinto Império. O padre António Vieira vê em el-rei D. João IV o Encoberto, e o Quinto Império como um estado perfeito, estabelecendo o Reino de Cristo em todo o mundo, reino em que todos os príncipes e nações viverão em paz e segurança… a justiça universal, o bem-estar pleno e todas as qualidades humanas negativas desaparecerão.

Na Mensagem, Fernando Pessoa, o último profeta do Quinto Império, deixa-nos um texto que desempenha o papel de bússola poética orientadora do novo sebastianismo. Nação desejada por Deus, Portugal, tem a missão messiânica de criar o derradeiro e definitivo império, um império espiritual, abundante de justiça e paz. Um império «de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo».

Muitos foram os pensadores que se debruçaram sobre o mito sebastianista, abordando-o na sua vertente histórica e cultural, por vezes, com uma visão desencantada e realista.
Na sua lucidez desapaixonada, Eduardo Lourenço considera o sebastianismo como não-resposta de Portugal ao avanço científico, religioso, cultural e económico da Europa Ocidental, tal como Boaventura Sousa Santos o resume a um conjunto de ideias gerais de um país sem tradição filosófica nem científica.

De todas as versões prefiro a de Pessoa, para quem o sebastianismo constitui-se como uma verdadeira religião nacional, substituta do cristianismo como religião importada de Roma e D. Sebastião assume-se como o verdadeiro «Cristo de Portugal», cuja imagética, simbolizada n’O Encoberto, se revelará um dia, operando o advento do Quinto Império. Mais do que cristãos, somos todos sebastianistas por cultura.

Em tempos de resgate da nossa soberania, estamos novamente perante uma elite reinante que divide entre si a riqueza do país e nos condena à miséria, à emigração forçada e à crença no regresso d’O Encoberto.

Anúncios