Sempre o DiaboSempre o Diabo by Donald Ray Pollock

Uma galeria de personagens perturbados pelo seu passado e em desencontro com Deus habitam este romance. Não são vidas avulsas. Donald Ray Pollock transmite-nos a ideia de que, em um dado momento da história, essa ligação ficará esclarecida. São gente temente do bom Deus, vítimas da pobreza, do alcoolismo e da pequenez do mundo em que vivem. Os seus destinos parecem depender mais do capricho do mal do que da boa graça divina. É dessa impossibilidade que sofrem, por mais sinais que encontrem nas suas vidas. O destino foge-lhes nas mãos de um Deus inacessível, um Deus que não os escuta.

Gente entregue a uma vida no limiar da sobrevivência, procurando um sentido para as suas existências. Uma experiência que seja a manifestação da presença de Deus. Apenas Arvin não acredita em nada disso. Ele sabe que os altares erguidos pelo homem não funcionam. Do pai, aprendeu a não engolir desaforos, a esperar o momento certo, como o peregrino se guarda para a oração. Dele herdou também uma pistola alemã que este trouxera da guerra. Willard regressara sem medalhas e com a imagem do soldado Miller Jones na cabeça: esfolado vivo e crucificado pelos japoneses, ainda com o coração a bater. Não o podia partilhar com ninguém. Recordava então as palavras de um jovem padre: este mundo depravado e corrupto só servia para nos preparar para outro.

– Acha que o Miller Jones queria saber se a mulher andava a pôr-lhe os cornos? – disse Wilard. – Ó amigo, ele daria tudo para estar no seu lugar.
– Quem é esse Miller Jones?
Willard olhou pela janela e viu o cume da montanha Greenbrier começar a aparecer ao longe por entre uma neblina. Tinha as mãos a tremer e a testa a luzir de suor.
– Um pobre diabo que foi para a guerra onde não o quiseram, só isso.

Gente que se entrega às suas fraquezas, a empregos mal pagos e quando um sonho lhes assiste, este parece logo esgotar-se com a mesma indiferença com que as suas orações não são escutadas. Carl sonha ser um dia um fotógrafo, mas não faz nada para que isso aconteça. É um psicopata que só na morte é que conseguia sentir a presença de alguma coisa parecida com Deus. Roy, o pregador que comia aranhas, encontra a morte no dia em que se propõe viver a vida com retidão. Jimie, sem qualquer talento, sonha com uma vida de cantor country. Teve a sorte de morrer com esse sonho ainda na cabeça. O pregador Teagardy, pedófilo, sentia-se culpado e essa emoção era a prova de que ainda podia ir para o Céu.

A escrita é de uma lucidez crua, uma narração isenta de escândalo, que não se demora com o lado chocante da morte. Nunca temos um relato claro do que Sandy e Carl fazem aos seus modelos. Vamos percebendo o que se passou por flashbacks, pelas fotos que Carl ia tirando ou pelos pensamentos que o assaltam: conseguia fazer coisas que os levariam a comer os dedos um do outro só para terem um momento de alívio. Só era preciso ele decidir-se.

É uma escrita que não se exalta, lenta como as mãos trémulas do tio Earskell tentando enrolar um cigarro. O velhote sorriu e procurou um fósforo no bolso da camisa. Teve de procurar durante muito tempo até conseguir encontrar um. Este esbater da narrativa, a atenção dispensada aos pormenores do cotidiano, leva-nos a aceitar com alguma naturalidade a bestialidades destas vidas. Homens tementes de Deus, ignorando que, neles, há muito se manifesta sempre o Diabo.

– Cum caraças, rapaz, mas que diabo vem a ser isto?
– É o tronco das orações – disse Arvin, num tom que pouco mais era do que um sussurro.
– O quê? Um tronco de orações?
Arvin acenou com a cabeça, olhando o corpo do pai.
– Mas não resulta – acrescentou.

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