Mal NascerMal Nascer by Carlos Campaniço

Embora seja inverno, o dia tem um solzinho agarrado, por um favor vacilante, ao tecto do céu, ladeado por muitas nuvens brancas, indecisas sobre o rumo a tomar.

Um jovem médico fugido de Lisboa, por motivos políticos, regressa à terra que o viu nascer e onde não é reconhecido. Procurando evitar que notícias suas cheguem a quem, em Lisboa, o persegue, Santiago vai cedendo ao equívoco de uma nova identidade. O menino pobre, guardador de porcos é agora um médico respeitado e cortejado pelo homem mais rico da terra para pretendente da sua filha. Carlos Campaniço, numa escrita singular, relata-nos uma história de amor e desengano.

O romance regressa frequentemente ao passado para nos contar como foi a meninice de Santiago e a sua relação com a família mais rica e poderosa da terra. É uma dor física que o tempo não apagou. “Há desgosto neste princípio de semana, fundo e muito acerbo, que me vem à boca como arrotos de uma indigestão.”

A necessidade de dissimular a sua militância política, que o deixaria exposto ao perigo dos ódios, serve-lhe de pretexto para adiar a revelação da sua verdadeira identidade. Santiago apaixona-se, mas não pela herdeira da poderosa família Chagas. “… não sei o que mais me apraz nela, se a sua beleza que se divulga por toda a sala de jantar, se a sua postura digna de mulher determinada.” A atenção do seu amor é alvo das frases mais ousadas do romance. “E, falando, o seu hálito sadio expande-se em minha volta.” Ao pé dela, as demais parecem mulheres inacabadas. Ou saudando a sua chegada: “Dá-se uma primavera numa sala de inverno.”

Carlos Campaniço terá de arriscar uma narrativa sem rede e fora dos temas clássicos, para aí, com a devida contenção semântica e emocional, lançar na sua escrita e de forma convincente, todo o seu talento.

É de um fogo parado este sol que nos enxuga o corpo.

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