Quatro Cantos do MundoQuatro Cantos do Mundo by Cristina Carvalho

A escuridão é a parte mais difícil da vida, aqui e em todo o lado.

Quatro Cantos do Mundo é uma viagem ao planeta Terra, ao seu lado mais profundo, desconhecido e misterioso. Um devaneio literário como lhe chama a autora, uma viagem por locais físicos, percorridos pelo olhar irrequieto da nossa imaginação. Recantos apenas acessíveis a um devir poético. São quatro contos entregues a um narrador que nos chega do infinito universo, ele próprio viajante das estrelas e que nos fala a partir do ponto de vista das crianças ou dos jovens. Só a curiosidade de um coração puro vence o medo do desconhecido e só uma mente livre do peso do bem e do mal consegue escutar a voz pela qual a natureza nos fala. Então, todas as viagens se tornam possíveis. Na Casa Verde o feiticeiro da aldeia, o homem mais sábio, foi em tempos um menino que subiu ao dorso de uma ave e a quem lhe foi dado o privilégio de ver o mundo a partir de uma perspetiva radicalmente diferente. Regressou já homem de idade feita, dotado de uma sabedoria para além do dizível.

Os grandes viajantes e descobridores aqui homenageados ofereceram-nos uma visão do mundo que, de outra forma, não teríamos a possibilidade de abarcar. Alimentaram com coragem a sua sede de conhecimento e empurram os limites do nosso saber. Chegaram lá antes de se terem perdido. Mais do que dar a conhecer, alimentaram os sonhos de tantas crianças, jovens e adultos. Encontraram na imensidão, que nos devolve à nossa pequenez, a consciência de sermos apenas mais um habitante deste planeta, um entre muitos. Não faz parte da nossa condição humana sermos o centro do mundo, o objetivo final de tudo o que existe. Nessa imensidão incalculável tudo era uma sede impossível de ser satisfeita.

Em cada conto surge um momento de viragem, de transfiguração. Na floresta verde existe uma pedra com um imenso buraco negro, uma entrada. Um momento iniciático que se abre apenas à coragem. Muitas das nossas viagens começam em locais que abandonamos, como a viagem iniciada por Molk. São locais enjeitados por falta de convicções. Nesse caminhar reside a celebração da vida e dos seus ciclos.

Na viagem ao fundo do mar descobrimos que um dia também fomos peixes, que a nossa primitiva célula já habitou mundos que hoje nos estão vedados, ou talvez não. Na primeira fase da vida não somos mais do que uma espécie de girino, vivemos largos meses boiando em líquidos, sem respirar o ar da Terra. E tudo isso nos é dado a pensar. Confiantes, submergimos nesta viagem inacreditável.

As ilustrações de Manuel San-Payo são uma forma de contar a história dentro da história, não são, no entanto, um eco do narrador: recriam no traço e na cor a essência destes universos.

Só o viajante experimentado na arte de ver e de se deixar maravilhar pode fazer a síntese da harmonia entre todos os elementos e os seres vivos, resgatando-os a uma existência de sobressalto. Cristina Carvalho deixa-nos mais um romance do domínio do fantástico, uma celebração da vida, consciente de que, no sonho, ultrapassamos os limites da nossa condição humana.

Agora, os seus braços elevam-se e são compridos, são enormes os seus braços! Eles alcançam o firmamento e mexem e remexem espalhando as poeiras das galáxias.

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