É a GuerraÉ a Guerra by Ribeiro, Aquilino

Aquilino Ribeiro encontra-se em Paris no advento da primeira guerra mundial. Observador lúcido, germanófilo e anti belicista oferece-nos um relato desassombrado desses primeiros dias do conflito mundial. Numa escrita erudita, que não se coíbe em lançar mão a termos mais populares, deixa-nos um poderoso escrito cujo alcance extravasa o simples âmbito do registo de memórias. Existe nesta escrita qualquer coisa da magnitude do vento a encapelar o mar. Como povo, somos redimidos perante a história: pelo menos um de nós não comungou da barbárie que foi servida.

Aquilino vê na guerra a mão de Inglaterra, o único país verdadeiramente interessado no conflito. Na eminência do naufrágio é próprio do pirata espiar, disfarçado ou imóvel como esfinge.

Paris prepara-se para a guerra, os mais sôfregos açambarcam bens de primeira necessidade, que começam a rarear, os jornais, otimistas, lançam nas suas páginas os melhores prognósticos e achincalham tudo o que seja alemão. Pregam a guerra santa contra os bárbaros. Várias edições são vendidas no mesmo dia. … espicaçar o francês contra o boche tem sido número certo de determinado sector da vida mental e política de França. Passiva, a velha Albion, assiste a tudo, aproveitando-se da hora equívoca. Vê na guerra a oportunidade de proteger o seu império contra os apetites da musculada Alemanha, mais industrializada e cientificamente mais evoluída. Sabe que a vitória será sempre sua, sendo apenas uma questão de tempo. Os alemães tinham a força organizada, os ingleses o número. Enquanto houver pretos em África, índios, australianos, portugueses no mundo, o amigo John Bull não larga. E o viveiro é inesgotável.

O ministro plenipotenciário Chagas defende a participação de Portugal na guerra. Posição a que Aquilino se opõe fazendo crispar a relação entre os dois. Em nome de que justa, necessária causa, se podem despachar para o matadouro os meus pobres, ignorantes, pacíficos labregos? Aquilino não tem grande apreço pelo ministro que será um dos grandes patrocinadores da entrada de Portugal no conflito. Naquele jogo de contrastes estava o Chagas inteiro, falado, escrito, vivido: ênfase e rebuscado recuo para uma coisa que nunca soube o que era – simplicidade e modéstia.

A sua oposição à participação de Portugal não significa uma adesão política a um dos lados, mas a firme convicção da vacuidade de tal empresa. Declarar a guerra, atirar com milhares de pobres diabos para o maneta, exaurir o úbero chupado da nação, que é isso se há três – são três – magníficos Grais a conquistar: glorificar o nome português, sacudir a suserania do leopardo, pagar o nosso tributo à civilização? E vai a gente buscar a envolvente materialidade de tais objectivos e apenas encontra fumo.

Com o deflagrar da guerra os comportamentos alteram-se. As casas com nomes alemães são vandalizadas, as outras atestam a sua lealdade para com o país, afixando letreiros indicando que o patron ou os seus filhos foram mobilizados, os produtos alemães são retirados das prateleiras. Floresce uma nova indústria: a de galhardetes e bandeiras. Os jornalistas com a sua pena e o comércio engalanando-se com as cores de França, são os primeiros a bater-se contra os alemães. Os piores inimigos dos alemães são o papel impresso e o telégrafo sem fios, que se completam. E chega mesmo a concluir: Quem governa não é Deus, nem o monarca, nem a lei, nem o ditador mais ditador! são os caracteres de Gutenberg com a bobina de papel em rotativa Marinoni.

Exalta-se o momento histórico, a França bate-se por todas as nações civilizadas do mundo e todas elas, numa imposição moral, são chamadas a participar. O exagero da concepção finalista levou a isto: a considerar a história como sucessão de factos solidários uns dos outros, nunca vãos nem contraproducentes. Deste modo tudo é humano, tudo é justo, tudo merece a nossa vénia.

Os esforços do ministro Chagas para comprometer a participação portuguesa na guerra sobem de tom. Ignorado nas chancelarias dos grandes, encontra no Corpo Expedicionário Português a derradeira oportunidade de ser recebido, de as frequentar como um par. Aquilino não lhe perdoa e dirige-lhe amargas palavras. É próprio do carácter dos mestiços a versatilidade… Chagas pleiteia na causa dos aliados uma causa muito sua, estranhamente sua. Isto porque: Ninguém teve para com ele a atenção e natural deferência que são devidas a um partner de qualidade, consultando-o, trazendo ao corrente dos factos, solicitando-lhe concurso. São os que não indo à guerra, mandam, por via das regras, os filhos dos outros.

O ministro Chagas acompanha o governo na sua fuga para o sul do país. Aquilino coloca na boca de um conterrâneo as seguintes palavras: O negroide do nosso ministro abalou sem se importar para coisa nenhuma com os portugueses que ficaram em Paris. Crítico em relação as autoridades consulares, acrescenta: As autoridades consulares ou diplomáticas portuguesas, em regra, não prestam para mais do que para tirar o coiro e a camisa ao desgraçado do lusitano que tem o mau sestro ou pouca sorte de pôr o pé na chafarica em que fazem o simulacro de ganhar a vida honorificamente.

Aquilino acompanha as manobras políticas, as exaltações da imprensa, mas o que verdadeiramente lhe interessa dentro da armação política é a comunidade humana. A maior parte da sua atenção é-lhe dirigida. À medida que Paris se vai esvaziando dos aptos a combater, a fauna humana vai-se alterando até à fuga final do governo para o sul do país. Perguntam-lhe o que faz ainda em Paris, responde que sendo estrangeiro não tem de ser mobilizado. Estranha o seu interlocutor que ele não seja Francês. No final deste texto, encontram-se dois links que atestam o seu interesse pela esquecida comunidade humana que, por diversos motivos, não abandonou Paris.

Estas memórias de Aquilino são um testemunho maior antiguerra, destruindo qualquer ilusão sobre o seu papel na defesa dos valores da civilização. Definitivamente rejeita: ir estupidamente fazer-me massacrar em nome de abstrações que só por absurdo podem constituir a felicidade dos povos. Uma leitura indispensável.

Acima da sua vontade destruidora há uma obra de permutação humana que persiste às vicissitudes do tempo. Chama-se cultura, que nem é apanágio de latinos nem de germanos, mas cosmopolita, depois de irradiar da Europa, solar da civilização ária.

A nurse inglesa.

Combatentes nas ruas de Paris.

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