UP-Julho01Dinossauro no pátio (o casamento) – um sonho by Gonçalo M. Tavares

Está um dinossauro no pátio das crianças e o pai por vezes pensa que pode acontecer um acidente, mas sente-se, naquele dia, particularmente preguiçoso e deixa-se estar, sentado, com o jornal – embora nunca desviando os olhos da janela que permite ver o pátio.

Receia principalmente um acidente com o mais novo, um grito arranca-o em sobressalto da leitura. Da janela já não avista o mais velho, estão lá apenas o mais novo e o dinossauro. Apreensivo dirige-se à sua mulher que trabalha excessivamente e pergunta-lhe quantos filhos tinham, se um ou dois.

A mulher levanta um dedo e diz: um!
Isso, diz o homem, desculpando-se por a interromper.

Regressa à sua leitura, não pretende incomodar mais a sua mulher, mas não deixa de pensar que se aquela criança é a mais nova, deveria existir uma mais velha.

Neste pequeno conto, de uma grande economia de palavras, existe um tempo se estende, sem um suporte aparente. A ação que se espera imediata, de pânico pelo desaparecimento de uma das crianças, tarda e nunca chega a acontecer. Estamos dentro de um tempo que convive tranquilamente com o absurdo, como nos acontece nos sonhos. O dinossauro é aqui a parábola desse absurdo, terá sido tudo um sonho?

(Revista UP de Julho, TAP)

Leia aqui este conto.

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