Uma Outra VozUma Outra Voz by Gabriela Ruivo Trindade

A prisão onde me encontro não existe.
E, no entanto, prende-me.

Um romance a várias vozes, cada uma narrando uma história pessoal, todas encadeadas a partir da mudança de protagonista, ou de uma morte ou de outra perda qualquer. Cada nova voz surge quando a outra se cala para sempre. A vida que deixamos por viver carrega uma dor que se transmite. As vozes dão-lhe expressão, corpo e alimentam a narrativa deste romance numa estrutura invulgar tecida com inegável sensibilidade.

Na abertura deste romance – na primeira voz -, João Carreço Simões surge-nos em duas notícias, separadas por trinta anos. Encontramos então um decaimento da memória: na primeira temos a exaltação do personagem e na segunda, uma simples nota de obituário, como se o tempo depois de lhe ter roubado a vida, viesse também apagar a sua memória. As palavras que usamos precisam de uma voz, só ela se funde indissociavelmente com a vida.

Mas a mamã é assim: até pode tecer considerações completamente absurdas, mas fá-lo com tal autoridade que, para os outros, se tornam verdadeiras.

A escrita de Gabriela Ruivo Trindade irradia uma segurança que lhe confere uma invulgar autoridade para uma primeira obra. Uma veracidade impregna estas vozes, conferindo-lhes o realismo com que é moldada a vida de sucessivas gerações de uma família, ou das fortes relações afetivas que identificamos como tal. Nesta história existe um professor que é poeta e a quem as crianças respondem acertadamente. Esta escrita é da mesma natureza. Quando já estamos rendidos à sua autoridade, chega-nos a terceira voz. E então sustemos a respiração porque percebemos que somos acometidos por um momento de magia. A voz de um jovem, confinado ao seu leito de invalidez, arrebata-nos. Uma voz carpida sem choraminguice e que nos agride com a violência da sua lucidez. O inoportuno de se ser inteiro num corpo que deixou de nos pertencer e onde nos sentimos como um estranho. Chego a acreditar que me roubaram o antigo corpo ou o deitei fora. Talvez o tenha despido, como quem arranca o pijama de manhã, e me tenha enfiado noutro. Usado, ainda por cima. Gasto, velho e com defeito.

Um imenso confessionário onde não se busca uma reparação. Vozes que falam e se calam em gestos de declarações mudas, olhares que nos marcam a vida que insistimos empurrar à nossa frente porque, simplesmente, somos demasiado jovens para morrer. Os momentos que nos são negados, mesmo quando nos oferecem tanto: Ele continuava a olhar-me como se me matasse e eu, sem saber o que fazer para não me deixar morrer

Voz que nos remete à obrigação de conhecermos o nosso lugar, de saber a ordem a que pertencemos ou a fraca luz que nos foi destinada iluminar o nosso caminho. E quando algo de bom surge, não nos consideramos merecedores e o momento esgota-se: engoli o ar de toda a minha vida naquele beijo. Como se tudo na vida, a própria realidade, não dependesse da nossa determinação.

Estou tão acostumada às sombras que chego a confundi-las com a luz.

A história de uma família ao longo de um século; podia resumir-se este romance desta forma, porque tudo o mais não fará justiça a esta obra ou à escrita de Gabriela Ruivo Trindade. Um livro que convida a demorar-nos numa frase, a reler toda uma extensa passagem, descobri-la como um refrão cantado numa voz que não nos cansamos de escutar. Encontramos aqui a magia das histórias de encantar, da oralidade vertida numa escrita cuidada e trabalhada com enlevo e o relato lúcido de toda a solidão com que conseguimos preencher a nossa vida.

…entregar-me nos braços da morte como quem enrola um velho cobertor de que já conhece o cheiro.

——————————————–

Leia aqui uma passagem deste livro.

Anúncios